lembro-me de ti,
na inquietude da noite
acre
e cortante
como a textura
afusada de cem lâminas
em brasa
a rasgar a pele como
papel de carta;
as tuas mãos são de papel, dizes
e sete sombras me alcançam
os membros
e os amarrotam
e arranham
e sugam.
membros do peito,
seios
que agarram e espremem
no desejo ardente
do caos;
elas matam-me e num
ligeiro sufoco
eu repito a resposta perdida
nas cinzas mornas das
lembranças,
essa frase que me serra
o ânimo:
porque as tuas são de escritor.
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Tuesday, December 24, 2013
Wednesday, November 20, 2013
Thursday, November 07, 2013
Adeus
Quis saber se de sal se te cobrem os dedos
Ou se toda a tua pele possui ainda o toque
Cetim de outras vidas- cujos passos julgamos
Por nossos- e do amor, esse trapo bordado
A dois, com fios de seda e finíssima agulha.
Mas levanto minhas próprias mãos aos olhos.
Tanto tiveram de ensanguentadas de tanto
Te bordar carinho- esse retalho cuidado que
Tão levemente deitaste fora trazendo uma
Máscara de papel sobre o delicado rosto.
Há uma música longínqua no ar que nos
Recorda que o passado é para sempre nosso.
E que cada palavra tem a cor carmim do sangue
Derramado nesses lenços de amor. Escuta-la?
Dos interstícios da pele e do tempo, despede-se...
Monday, July 01, 2013
teus ossos jardins de inverno
Foi num tempo em que os teus ossos eram jardins de inverno cujas
árvores se despiram de folhagem, teus olhos revelavam troncos escuros e
não havia um único vestígio de primavera neles. Densas nuvens cobriam o
céu e pelas ruas, gotas de chuva que lembravam ritmos de Jazz- Ding Ding Ding, Tara-ta-tarara- e tambores
ao fundo, qual marcha, e nós, embebecidos nessa orquestra sinfónica.
Tão longe de nós próprios como perto um do outro. Das memórias, te levo
apenas o sopro, quente, que te envolvia em pequenas nuvens nas quais
mergulhava para te ter num abraço. Teus ossos jardins de inverno... e
eu, magma querendo derreter-te a pele. Foi num tempo assim que tentei
ver-me nos teus olhos, reflexo de ti, mas o seu brilho perdeu-se na
chegada lenta do calor de verão. Tudo o que pude ver foi um ébano seco e
nenhum verde musgo exorbitante. Agora, também já nem escuto qualquer
som, somente um eco que se perdeu da estação.
Raquel Gonçalves
Saturday, June 15, 2013
De cinza se cobre o céu-
lá fora...
Volto para dentro, guardo-me-
ele chora...
Vasculha o vento o jardim:
àrvores, canteiros, prado.
O rio, bate e embate na
margem- está revolto, revoltado.
Às vezes eu sinto um medo
Grande, de aqui estar-
só...
Na casa que tu escolheste deixar.
Escuta!- uivos da tempestade...;
a força deste inverno...
Ele existe, mas fora de estação.
Onde?
- Em meu coração...
Maria, numa tarde de verão
lá fora...
Volto para dentro, guardo-me-
ele chora...
Vasculha o vento o jardim:
àrvores, canteiros, prado.
O rio, bate e embate na
margem- está revolto, revoltado.
Às vezes eu sinto um medo
Grande, de aqui estar-
só...
Na casa que tu escolheste deixar.
Escuta!- uivos da tempestade...;
a força deste inverno...
Ele existe, mas fora de estação.
Onde?
- Em meu coração...
Maria, numa tarde de verão
Saturday, June 01, 2013
Caminhando por debaixo das luzes da cidade numa noite fresca anunciando verão, fugindo em passos adiantados para que mais ninguém a mim viesse de encontro e de encontro aos meus pensamentos. A passos tantos os meus pés calorosamente encontram a areia do rio, como amantes que emborcam álcool e de seguida amor, há muito apetecido. Deito-me, escutando as vozes de quem me segue o encalço e perdendo-me logo nas vozes de quem não o seguiu. Emborco memórias- não me lembrando, porém, de sequer chorar por ti, mas sei que morri e sei tão de cor a vida depois da morte que não precisaria de ler por entre linhas do corpo as vezes que de mim me perdi. Sei que passou um ano, mas há muito que o tempo deixou de ter medida, há muito que deixei de contar os dias. Os relógios são agora por estações- a que te conheci, a que te amei, a que te perdi, a que por ela me arrastei- com o peso dos dias e das rotinas de onde já não fazias parte. Sinto-te a falta tantas vezes quanto as que te detesto, querido, e soubesse eu roubar-te o brilho e devolvê-lo às estrelas ou não tivesse eu um coração de um só ritmo, o teu. Sob o lúgubre céu guarnecido de pérolas, contando eu as caídas, pois dizem que nos concedem desejos, e ainda antes de sequer pensar num pedido, já uma palavra se ergue em minha mente tão depressa quanto a estrela caiu- o teu nome. E um bater de asas se faz ouvir ao longe dentro do meu espírito e eu não sei o que faça- se me afogue no céu, se me afogue no rio. Mas pensando melhor, seja talvez no céu, porque cada estrela tem o teu nome, enquanto que o rio, apenas e só o meu reflexo.
Violeta de Carvalho
Monday, May 27, 2013
Talvez se o meu cabelo cortasse o ar delicadamente num rodopio- em passos de anjo e pequenos voos, braços arqueados como asas e pés descalços- soubesse eu dançar como aves- e cobriria os meus olhos de sombras para que os visses também, a eles, dançar. Talvez se os meus modos fossem mais delicados, como perfume de framboesa num jardim de inverno e com ponta dos meus dedos te encontrasse amor, pousando no chão do meu salto de mariposa em chamas, com a ponta dos dedos te derretesse a pele, qual neve. Encontrasse eu o segredo de tal beleza, não fosse eu mulher das palavras, e reproduzir em perfeição cada um desses gestos, e, exclamo suspiros, oh, oh... pudesse. Talvez pudesses também tu, gostar de mim.
Raquel Gonçalves
Saturday, May 25, 2013
Nunca fomos fogos indecisos, incendiando as veias, sangue em combustão. Nunca fomos nada disso de beijar nos lábios e de dar as mãos na rua. Tampouco éramos de palavras, apesar de ambos sermos feitos delas. Em contrapartida, eras o inverno, eu, primavera dos génios. De semelhanças tantas começamos a procurar pelas diferenças e tinhas realmente razão, em nada éramos iguais. Nunca fomos amor errante, apesar de todo o nosso amor ser um enorme erro, dirás. Já eu, calo o que te diria se estivesses aqui, calo-o no meu coração que nem as paredes do quarto ousam ouvir. Tenho-te um ódio tão grande quanto o meu amor por ti. Vejo-te em cada pássaro em cada fio, suspiro-te em cada pena de cada ave. Mas olhá-las, no mais alto dos voos e lembrar-me que nunca as poderei alcançar, como nunca te poderei alcançar de novo, pássaro. Nunca fomos promessas quebradas, porque nunca as proferimos antes. Mas fomos cartas rasgadas e correspondência que daria em livro. Fomos metáforas e alegorias e fomos inúmeros jogos, estilos e expressões. Fomos tanto, quase tudo, daquilo que já nada somos. Ainda bem que te conheci.
Raquel Gonçalves
Saturday, May 11, 2013
Naquela manhã, tinha apanhado o cabelo que escorregava para a face, apenas a franja, e vesti a minha blusa branca com flores bordadas a castanho. Não havia nada no céu, excepto, aqui e acolá, pequenas margaridas flutuando como se tivessem sido suspiradas por esse deus em que eu não acredito. Mas também a manhã flutuou e tudo o que existia era o delito que viria a seguir. Assim como o tempo compassou, o dia aqueceu e foi tão depressa que de novo me achei nos teus olhos como desde esse dia um ano se passou. Mas não era tempo, ainda, de adivinhar futuros, tampouco de achar que perdêramos a cabeça, embora não tardasse muito para isso. Éramos pássaros nos telhados e ruas estreitas, cheiro a café e sol de primavera. Éramos também a primavera, mãos dadas e sussurros de coração para coração. Até que esse ébano soluçou sal entre os meus cabelos, em abraços de esconder emoções, não faz sentido estares a sofrer, eu pensei, e de tão belo que eras enquanto choravas chegou o tempo de perder a cabeça. Não contiveste lágrimas tal como não contive amor. Talvez tenha sido pedir demais, talvez a primavera fosse apenas eu e tu inverno delicado, como pude ousar quebrar-te o gelo? Mas de inverno mostravas pouco e toda a tua pele era um verão perfeito. Não adivinhei despedida quando me aqueceste a mão à saída, onde é que eu tinha a cabeça?
Friday, April 26, 2013
Estalam-se-me os sentidos, repetem-se-me as palavras.
Não sei que mais te dizer ou dizer a mim própria,
Se não te amo, minto. Se te amo, também.
Enrola-me no tempo e faz com que volte atrás,
Aos locais de onde o esquecimento seria lembrado-
Onde a felicidade intrínseca à distância de chávenas de café
E paladares quentes sussurando açúcares nos esperam.
Ainda brilhas, mesmo estando eu às escuras.
Possuidor de uma beleza que não se vê mas sente
E quero rasgar-te em fiados de perfeição
Mesmo que no fim morras nas minhas mãos.
O tempo faz tempo e avança em corrida de quem chega primeiro-
A meta é o fim da minha contagem e estou perto.
O meu corpo é um precipício e a tua voz ecoa no meu sangue-
É por isso que me rasgo a pele,
Esperando jorar sublimes dores de te sentir.
Mas tudo em mim é acre e carmim
E pegajoso e sujo. E doloroso e salgado.
Só espero, a medo, mas ansiando, que no cruzamento de uma rua
Te cruze olhares, já que não me cruzas amor.
Aterroriza-me a ideia de te tornar a ver- catedral do tempo do jardim em flor-
E por suspiro ou imaginação sentir de novo o perfume de éden-
A tua pele. Mas estás mais longe que o paraíso.
O inferno por dentro de mim.
Saturday, April 13, 2013
Thursday, March 21, 2013
É difícil caminhar na linha do presente equilibrando a alma e a mente quando se carrega às costas as sombras de um passado roubado e de um futuro que nunca aconteceu. E sentir as nódoas negras desse desvio. Eu não pertenço a este lugar e esta não devia ser a minha vida, penso. Caminho pelas ruas de uma cidade esquecida e sinto-lhe o travo a café gelado, esquecido no balcão da cozinha. As ruas elevam-se agora vertiginosamente sobre mim, mas não cedo a esse medo, apresenta-se-me o teu reflexo ténue que a memória não mais permite reconstruir. Toco-lhe mas não passa de um fumo que nem sequer existe. É difícil caminhar na linha do presente quando se vive com um nada substancial dentro de nós. Perco os sentidos na madrugada porque a pele chora encarnada e eu penso, o que estou a fazer? E os estilhaços de vidro voltam para a caixa que arrumo no armário. Ardo neste frio e descubro a beleza das minhas profundezas á superfície de mim. O inverno é tudo o que existe e sempre existiu e o verão passado nunca aconteceu. Recordo-me das suas sombras quentes mas logo as esqueço e o inverno é tudo o que eu quero que exista. Sonho gelar nele e depois quebrar e derreter em primavera eterna e ser flores e ser terra. Sonho a morte dos vivos porque me resta a vida de morte. É difícil caminhar na linha do presente quando se suspira pretéritos e se foge de futuros.
Monday, March 11, 2013
Isto é algo que nunca devia ter saido do meu diário, mas, enfim, não consegui ignorar este dia...
O décimo primeiro dia do terceiro mês de todos os tempos
Digo o teu nome em pensamento,
Quantas vezes não me passeei
Em tais sílabas?
Quantas não me encontrei perdida
Em tais labirintos?
Estradas que soavam a riso e a barro...
Gargalhadas em mãos de argila...
Porém, secou-se-me o Barro entre
Os dedos! Fecho o punho!
Mas logo o abro...
É esta réstia de graça, estas cinzas do amor,
Que me não deixa odiar a terra...
A lama que me suja os pés e
O corpo de vergonha!
Perdi a vontade de rir, o hábito de
Sorrir,
À única sílaba com que se faz
O teu nome...
Feliz aniversário.
Violeta de C.
O décimo primeiro dia do terceiro mês de todos os tempos
Digo o teu nome em pensamento,
Quantas vezes não me passeei
Em tais sílabas?
Quantas não me encontrei perdida
Em tais labirintos?
Estradas que soavam a riso e a barro...
Gargalhadas em mãos de argila...
Porém, secou-se-me o Barro entre
Os dedos! Fecho o punho!
Mas logo o abro...
É esta réstia de graça, estas cinzas do amor,
Que me não deixa odiar a terra...
A lama que me suja os pés e
O corpo de vergonha!
Perdi a vontade de rir, o hábito de
Sorrir,
À única sílaba com que se faz
O teu nome...
Feliz aniversário.
Violeta de C.
Tuesday, March 05, 2013
Vejo no espelho o meu reflexo rasgar-se em inúmeros farrapos à última luz do final de tarde. Vejo cristais perderem-se na sombra escura do chão de madeira, embebecendo de licor de sal, ao qual os meus joelhos cedem por vício e provam. O peito inclina-se sobre a cama onde o gato dorme sem pressentir a morte que nunca esteve tão perto. Algo quente jorra em fios pela neve com que me visto, cheira a mar. Os meus dedos avançam pela colcha desértica mas não encontram nada para além da dormência do teu fantasma, que me aguarda, cujos dedos alcançam os meus. Imagino a sensação de poder realmente tocá-los e sinto-a de facto no eco distante das recordações. Oh, que terno amor envenenado, que doce morte adormecida! Ele sorri-me, abrem-se os seus lábios numa expressão delicada, qual pétala de rosa! Olha-me, no mais frio ébano, como se pedisse perdão e é aí que, num pequeno e cansado choque, numa lágrima de velha desilusão, eu me lembro de que ele não é de todo real. Tu nunca me pedirias perdão.
Violeta
Violeta
Estavas sentado com as pernas cruzadas, enquanto mexias o café devagar e estendias o olhar até ao fundo da rua. As tuas mãos moviam-se atabalhoadamente pegando na chávena e levando-a aos lábios e quando a pousavam, rodeavam-na como se fosse ela a precisar de abrigo. Os óculos escuros reflectiam o sol que desfalecia com o passar do tempo e com o passar do amor. Duas pequenas chamas negras fitando o castanho chocolate da mesa de café. O calor tornava-te disforme e derretia o resto, desde o balcão ao final da rua, em nada mais do que periclitantes imagens distorcidas aos meus olhos. Essa tempestuosa dissociação de nexos pairou ameaçadoramente sobre nós e eu ter-me-ia deixado afogar, não fosse o almiscarado perfume do teu pescoço. As trémulas costas da tua mão limpavam o orvalho que escalava a encosta sobre os teus olhos e, por detrás de um brilho fusco, eles ignoravam o bosque cerrado dos meus. Temi que as penas do teu cabelo caíssem sobre as tuas mãos que agora se abraçavam uma à outra e não às minhas, temi que te desfizesses em sal e deixasses o mundo, pois eu seguir-te-ia o encalço. Hoje, creio que deveria ter chovido nesse dia, porque tal calor não fazia bem ao inverno que trazias em ti. Estávamos em Maio, e mal eu sabia que não era em Dezembro que acabaria o mundo.
Violeta de Carvalho.
Thursday, February 21, 2013
Eras um conhecedor de palavras, sabias como usar esse teu engenho e enchias-te de sons, desses fonemas de aroma a sonhos, a utopias. Eras como um poema gramaticalmente correto, digamos que, perfeito. Tão perfeito eras quanto mais vazios esses sons. Tão mais completo quanto mais oco o teu dom. Mas estavas um passo à frente, uma passo que significava um poço de conceitos, um abismo informe e abstrato entre mim e a tua retórica. Estavas, portanto, adiantado. Deixavas-me pedrinhas pelo caminho, um rasto de pão de contos de fadas, para que te seguisse. E agora que te vou alcançando em arte, percebo, desmistificando-te, que não eras tão perfeito como eu pensei que fosses e que, sim, tendo sido absolutamente narcisista por te amar, já não me vejo em ti. Já não te juro amor, apesar da saudade. E, apesar da pele clara que se renova sobre as feridas, apesar da incapacidade de sentir mais do que o nada, és o fundo do poço que não acaba. O meu caminho, porém, não são os teus passos, não é o teu encalço, não te sigo, apenas caminho lado a lado com a névoa invisível que carrego da tua presença.
Raquel Gonçalves
Monday, January 07, 2013
Ponho a mesa com um gesto mecânico, sinto o odor das laranjas que espremo sem sequer pensar no que estou a fazer. Respondo e sorrio sem estar realmente presente, porque a minha mente está tão longe como tu. Imagino-te, num calor gelado de inverno, a encontrares a pele dela entre um mar de lençóis submerso em noite, com a ponta dos teus dedos, que outrora vaguearam na minha sem rumo. Vejo-vos ao longe, sem conhecer os traços que lhe pertencem, embora ela conheça, demasiado bem, os traços que me pertencem, isto é, que te pertencem. Escuto atentamente o amor dela entre suspiros por mais amor, desses que crescem pelos canteiros da cidade, desses que surgem no fundo do peito e o percorrem como água em rios. Aproximo-me do vosso leito e peço-lhe, num sussurro, que te ame melhor, com igual doçura com que te amei a ti, apesar de adivinhar isso impossível. Quero que ela te ame, mas não suporto que a ames de volta. E entre um abraço de paixões tardias, tu levantas os olhos e vês-me, a um canto desse quarto cheio de perfumes, e num esgar de ódio, e culpa, mergulhas de novo num calor que não é o meu. Percorres o seu peito de beijos e sorves-lhe o ar, como um amante, como um amante... E eu quero que a ames melhor, com toda a doçura com que te amo a ti.
Raquel
Monday, November 19, 2012
Tenho um globo no meu quarto e vou rodando-o, passo o indicador pela França e o polegar sobre o Japão, depois procuro Nova Iorque, mas encontro Londres. Todos os destinos a que haveríamos de viajar um dia. Lembro-me que uma vez me contaste que gostavas de viver em Paris, por causa de uma livraria qualquer que é a mais velha do mundo ou assim... e prometeste que me havias de levar lá contigo... mas as promessas pedem para ser quebradas, ao que parece...
As tuas camélias estão tão bonitas Tom, oxalá as visses...
As outras andam por aí perdidas ou cansadas, ou sem querer saber. Estou sozinha em casa. Fiz chá para dois, porque ainda tenho esse velho hábito, mas só há um para o chá. Sabes, por vezes eu quero chorar, mas lembro-me que uma vez me disseste para nunca ter medo, porque ele é um vórtice que nos destrói por dentro ou assim... Oh Tom, lembraste disso?
Estive à conversa com a Vi... ela disse àquela amiga dela, a Naoko, que eu pareço uma criança que tem medo de dizer as coisas como elas são... Mas não acho que seja assim. Simplesmente não gosto do tom rude que ela usa para se referir a tudo. Ás vezes ela consegue ser muito desagradável... e eu sei como tu te irritavas muito com ela quando era assim... e depois tu não sabias distinguir-nos e gritavas também comigo, ou então, quando não gritavas ficavas silencioso demais e eu preferia que gritasses e me fizesses querer chorar. Tenho o teu livro na mesa de cabeceira. Mas é estranho, porque ele não me diz nada sobre ti. A Vi diz que tu não sentes o que escreves e que toda a tua escrita é um emaranhado de palavras vagas e balofas. Mas eu não acho que seja assim. Simplesmente não te encontraste todo ainda, ou assim... E ela diz também que eu te desculpo por tudo e que estou sempre a repetir-me... Oh, às vezes é tão má!
O Kafka anda por aqui a miar, mas eu já lhe dei de comer e não percebo o que ele quer. Acho que ele quer saber quem tu és, porque tu nunca esperaste para o conhecer. Olha Tom... nada... que estejas bem, ou assim... Com amor,
Maria
As tuas camélias estão tão bonitas Tom, oxalá as visses...
As outras andam por aí perdidas ou cansadas, ou sem querer saber. Estou sozinha em casa. Fiz chá para dois, porque ainda tenho esse velho hábito, mas só há um para o chá. Sabes, por vezes eu quero chorar, mas lembro-me que uma vez me disseste para nunca ter medo, porque ele é um vórtice que nos destrói por dentro ou assim... Oh Tom, lembraste disso?
Estive à conversa com a Vi... ela disse àquela amiga dela, a Naoko, que eu pareço uma criança que tem medo de dizer as coisas como elas são... Mas não acho que seja assim. Simplesmente não gosto do tom rude que ela usa para se referir a tudo. Ás vezes ela consegue ser muito desagradável... e eu sei como tu te irritavas muito com ela quando era assim... e depois tu não sabias distinguir-nos e gritavas também comigo, ou então, quando não gritavas ficavas silencioso demais e eu preferia que gritasses e me fizesses querer chorar. Tenho o teu livro na mesa de cabeceira. Mas é estranho, porque ele não me diz nada sobre ti. A Vi diz que tu não sentes o que escreves e que toda a tua escrita é um emaranhado de palavras vagas e balofas. Mas eu não acho que seja assim. Simplesmente não te encontraste todo ainda, ou assim... E ela diz também que eu te desculpo por tudo e que estou sempre a repetir-me... Oh, às vezes é tão má!
O Kafka anda por aqui a miar, mas eu já lhe dei de comer e não percebo o que ele quer. Acho que ele quer saber quem tu és, porque tu nunca esperaste para o conhecer. Olha Tom... nada... que estejas bem, ou assim... Com amor,
Maria
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