o cansaço tomara o lugar dos meus sentidos mas senti ainda um peso sobre o colo, a susan que deitara a cabeça sobre mim. o fogo de artifício tomara o lugar do céu e, num recorte, uma lua fragmentada. metade dela boiando no negrume, fumo acinzentado e a susan levantou os olhos para mim- sorriu. era eu metade lua quando também lhe sorri. quis perder-me no infinito, da outra metade.
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Saturday, June 29, 2013
Monday, June 17, 2013
Talvez devesse cerrar as pálpebras que elas pesam, mas o fio de aço que é o meu pensamento não quebra. Às vezes penso que sou eu que provoco insónias, arranhando a pele que não sente nada além de formigueiros crescentes. Tento escrever, mas sinto-me seca.
Eu não sinto.
Tudo o que disser será ficção. A não ser que por milagre- e diga-se de passagem, eu não acredito em milagres- água perfure estes mantos de terra que me envolvem, sufocam, água penetre a terra pesada e que este poço que sou se preencha com ela. Para que eu sinta o que escrevo.
É já a única coisa que faz sentido, a escrita, ainda que o sentido flutue algures entre o pó galático e o hélio, em órbitas fora do meu alcance. Fosse eu um satélite perdido, oxalá.
Eu não penso, divago.
E estou terrivelmente cansada,
de existir.
ah!
e eu nunca pedi para ser poeta.
Eu não sinto.
Tudo o que disser será ficção. A não ser que por milagre- e diga-se de passagem, eu não acredito em milagres- água perfure estes mantos de terra que me envolvem, sufocam, água penetre a terra pesada e que este poço que sou se preencha com ela. Para que eu sinta o que escrevo.
É já a única coisa que faz sentido, a escrita, ainda que o sentido flutue algures entre o pó galático e o hélio, em órbitas fora do meu alcance. Fosse eu um satélite perdido, oxalá.
Eu não penso, divago.
E estou terrivelmente cansada,
de existir.
ah!
e eu nunca pedi para ser poeta.
Wednesday, April 24, 2013
Talvez hoje eu seja só nós cegos à espera de um desenlace- nós de quem cai em teias de aço feitas de enganos- ou então talvez seja apenas voos de pássaros à procura de céu- pássaros a quem nunca esse deus quis suspirar asas. De lábios gretados espero os teus, mais longe que o infinito- esbanjados na memória dos escassos instantes em que se provaram, os meus e os teus. Nunca demasiado tempo foi tempo suficiente para matar a vida que houve em mim- embora já estivesse eu morta da vida que o teu amor me deu. Talvez esse amor fosse um templo antigo- desses cheios de mistérios e segredos- e por isso ruiu- porque quisemos saber demais. Oh, esses escombros de onde tentei salvar-te(me), oh, o desespero de não te ter! E a memória... Em solavancos, em flashes de ti, atraiçoa-me a todas as horas e em sonhos onde surges mais belo que a perfeição e tão doloroso como mil espinhos de rosa! As palavras que suspiravas em hálitos de café e faces coradas, em lágrimas que escondias e soluços que, um ou outro, escapavam pelos jardins dos meus cabelos. Não sei que ódio é este com que te amo. Não sei que raiva é esta com que te quero- com cada poro do meu corpo, a arder de sede da tua pele. Não sei, que diabo faço, ainda a escrever para ti.
Teresa P. Viana
Teresa P. Viana
Wednesday, April 17, 2013
Tropeço em sorrisos, engasgo-me em alegria, minto a toda a hora. Roubam-me as forças com a facilidade com que se esmaga um inseto. Doo-me, e, sinceramente, não me quero e tampouco consigo entender como podem julgar querer-me os outros. Sou feita de metal cravado na pele e de cacos de vidro ensanguentados e estou cansada. Farta, até- sabes tanto de mim que é o mesmo que não saberes nada. Flores, o sol a bater-me no rosto, o gato a brincar entre as ervas- como podem elas ousar ser exorbitantemente verdes?- os livros espalhados pela relva e as meias sujas de terra. Brisa quente, cheiro a verão. Sabor a sal nos lábios e "muitos corações", tão triste como penas no cabelo e ébano no olhar- de que são feitas as tuas memórias?- de penas no cabelo e ébano no olhar. Escorrega o lápis para debaixo da cadeira de jardim, a que poço mais fundo terei de descer para te trazer de volta pássaro? E estava eu ali, descuidada de mim, coração desfeito e alma rasgada. Sabia que não iria voltar, porque, até agora.. enfim. Olho o céu tão estupidamente azul, porque é que tem de estar tão bonito hoje? Hoje que rasgo cartas e rasgo pele e queimo papel, e digo coisas sem sentido e falo de mim e arrependo-me. Arrependo-me sempre de tudo e dói tanto que rebento, mas estou tão vazia que nem ar tenho para ficar sem ele.
Violeta.
Monday, April 08, 2013
Ninguém bate à sua porta faz meses, também já ninguém telefona. Contudo, a caixa de correio está cheia de publicidade que ela não lê e às mensagens que foram passadas por debaixo da porta ela não responde. Uma camada de pó forma-se sobre as estantes dos livros mais que lidos, a única coisa que alguma vez lhe interessou, mas que não tem mais importância. A cama está feita e no sofá um emaranhado de cobertores ainda quentes, porque, no mundo, não havia buraco suficientemente confortável onde pudesse esconder-se, cobarde que era para sofrer. Na banca da cozinha cresce loiça suja que ela não se preocupou em lavar. Porém, no quarto, que agora é apenas seu, tão cruelmente seu, as gavetas da cómoda estão vazias e, intacta, está a porta do armário aberta tal como foi deixada faz meses. A cama gelou sobre as cinzas do que costumava ser fogo, mas ela prefere não se lembrar do calor, quem sabe, assim, não dê pela presença do frio. Estendida sobre a colcha está uma camisa branca que foi deixada para trás, assim como ela, faz meses e, assim como a ela, nunca ninguém voltou para a vir buscar. Sobre o pó da mesa de cabeceira, está uma moldura voltada para baixo, embora não faça tanta diferença assim, pois ela conhece aquela imagem de cor- dois sorrisos sinceros e de amor os contornos que definem os olhos, que a olham, mas que a não veem. Já ninguém a vê, aliás, faz meses, e aliás, faz meses que faz um ano. Faz um ano que se deu o primeiro abraço, tão abandonado como a memória que o guarda, tão triste como esta casa abandonada e tão esquecido como a alma que se foi embora deixando apenas uma camisa branca sobre a cama.
Thursday, March 21, 2013
É difícil caminhar na linha do presente equilibrando a alma e a mente quando se carrega às costas as sombras de um passado roubado e de um futuro que nunca aconteceu. E sentir as nódoas negras desse desvio. Eu não pertenço a este lugar e esta não devia ser a minha vida, penso. Caminho pelas ruas de uma cidade esquecida e sinto-lhe o travo a café gelado, esquecido no balcão da cozinha. As ruas elevam-se agora vertiginosamente sobre mim, mas não cedo a esse medo, apresenta-se-me o teu reflexo ténue que a memória não mais permite reconstruir. Toco-lhe mas não passa de um fumo que nem sequer existe. É difícil caminhar na linha do presente quando se vive com um nada substancial dentro de nós. Perco os sentidos na madrugada porque a pele chora encarnada e eu penso, o que estou a fazer? E os estilhaços de vidro voltam para a caixa que arrumo no armário. Ardo neste frio e descubro a beleza das minhas profundezas á superfície de mim. O inverno é tudo o que existe e sempre existiu e o verão passado nunca aconteceu. Recordo-me das suas sombras quentes mas logo as esqueço e o inverno é tudo o que eu quero que exista. Sonho gelar nele e depois quebrar e derreter em primavera eterna e ser flores e ser terra. Sonho a morte dos vivos porque me resta a vida de morte. É difícil caminhar na linha do presente quando se suspira pretéritos e se foge de futuros.
Saturday, March 09, 2013
O tempo recua cerca de um ano, em padrões de memórias, evidentemente. O ar condensa e dilata e espreme-me, de entre os seios, a essência de saudade. Nunca entendi o que significava partir até ter ido embora, sem pensar sequer que não haveria regresso. Oh, o tempo condensa e dilata e o ar recua cerca de um ano, faz-se sentir abafado sob o presságio de uma trovoada, eléctrico e vibrante. Com um pássaro pousado no dedo, e penas no meu cabelo, chuva num olhar que não era o meu, mas que caía sobre canteiros dos meus jardins. Oh, que veneno escorre de mim agora e me imunda o corpo e o tom e, suspiro, que dói. Sabe-me a memória a bolo de noz e a café, porque a Susan me levara a lanchar num dia em que, ainda seca, eu estava realmente feliz, apenas porque podia observar as aves de perto e o sol ainda não se tinha ido, para não voltar.
Saturday, January 19, 2013
Sou a superfície
sossegada de um lago e o meu coração é um pequeno barco de papel que flutua à
tona sem perigo de se afogar. Na verdade, este lago está deserto e há muito que
nada, nem ninguém, consegue mover estas águas. Talvez seja melhor para mim, e para
os outros, que me mantenha longe, embora eu esteja ainda tão perto. É difícil
compreender o que digo quando não se está por dentro, mas em tempos ouvi dizer
que é perigoso saber-se demais e eu prefiro não arriscar. Sim, vivo à margem e
não me misturo. Mantendo a minha água doce e minha, longe do sal e correntes de
outros rios e mares. Descanso a minha alma que, em jeito de paradoxo, nunca se
deu ao trabalho de cansar-se. Flutua apenas, seguindo o curso de uma brisa
leve, tão leve que mal a consegue mover. Prefiro que me detestem sem saberem o
que sou, por não me compreenderem, do que penetrem a minha mente de
compreensões e, acto contínuo, desilusões. Certa vez, li algures num livro do
Zimler que não devemos nunca contar segredos a alguém se não queremos vir a
sentir saudades dessa pessoa. Então, vivo os meus dias não vivendo muito,
flutuando apenas, na calma inquietante de um lago que nunca existiu.
Raquel
Raquel
21/12/2012
Tuesday, December 18, 2012
As nuvens condensavam-se e distendiam-se como cromossomas em ciclos celulares e a minha alma metamorfoseava-se como um leucócito em fagocitose. Pousei o livro do Murakami no banco da sala de espera enquanto era assaltada por estes pensamentos e foquei-me na árvore de natal cujos enfeites destoavam uns dos outros, parecendo ter sido descobertos nalgum sótão abandonado de uma casa dos inícios dos anos oitenta. O pequeno irmão reparou na capa do livro «Como é que um elefante evapora?», perguntara ele em voz baixa e olhos arregalados ansiando resposta. Acordou-me do meu sono acordado e trouxe-me de volta com tamanha brusquidão que fui de encontrão com a realidade. Respondi-lhe que não sabia, mas garanti-lhe que mal acabasse o livro ele seria "o primeiro" a saber e ele encolheu os ombros de criança e concentrou-se na caneta de tinta azul que parecia mover-se sozinha sob a sua pequena mão de artista. Algures afundada de novo na realidade inexistente ouvi chamar o meu nome e levantei-me mecanicamente seguindo o médico. Tinha um rosto estranho preenchido de traços indefinidos e olhos castanho outono por detrás dos óculos. Não se pode dizer que fosse feio, mas não era nada compatível com o símbolo estereotipado de beleza comercial. Tratou-me por tu e levou-me a uma pequena sala onde me pediu que trocasse as minhas roupas por uma bata azulada. Grande foi o meu espanto ao descobrir-me confortável dentro daquele embrulho, aliás, sentira-me até familiarizada como se de um dejá vu se tratasse. Imaginei-me num hospício e os meus olhos cansados e perdidos em nada contrastavam com essa ideia. Mas foi precisamente enquanto encontrava os meus olhos no pequeno espelho que, no meu braço esquerdo, uma cor rosa vivo, quase morto, me arrancou a atenção do verde musgo morto, quase vivo, dos olhos. Apercebi-me que tinha mais papoilas murchas de Abril no jardim da minha pele. E congelei por segundos até o homem dos óculos bater à porta azul e perguntar se estava pronta. Tapei o braço com a bata ficando com o ombro esquerdo à mostra e gaguejei alguma coisa indefinida que soou a afirmação. Mas a disposição nitidamente inequívoca das minhas vestes não lhe ficou indiferente e ele puxou a bata para cima, cobrindo o ombro suave e tenro, salvando-o das vistas de um homem sério. E aí ele viu, viu a primavera encarnada no jardim proibido de inverno e não era a sua estação e não estava certo. E ele viu e eu quis chorar e quis pedir-lhe ajuda e tê-lo-ia beijado nos lábios se ele tivesse a cura, mas estava fraca e cansada e a primavera em mim morrera dando lugar ao inverno mais rigoroso. E ele viu-me, assim vestida, dessa forma tão nua.
Monday, December 10, 2012
O cansaço de uma noite de insónias envolve-me todo o corpo, entorpecendo-o e dando livre acesso aos delírios. Doo-me e magoo-me sem dó. Estou fria e o gato está quente. O gato dorme e eu invejo-o. Sinto a alma mais fraca e gasta que as solas dos sapatos de um sem abrigo, mas dou gozo às más sensações e chamo-as. Venham, venham todas de uma vez só! Levem-me. Arrasto-me de um segundo para o outro e no entretanto já o tempo fugiu. Não era suposto custar tanto viver. Ao contrário de Campos, eu não tenho um lugar onde descansar, nem aqui nem em lado algum, nem em tempo algum, nem em infância alguma. Na lúgubre noite que passou, ouvi o ruído de uma caixa de fósforos no bolso do casaco e aí essa infância veio-me à memória: quem nos visse pela janela certamente pensaria que estaríamos simplesmente a brincar, a Helen e eu em corpos de crianças tenras e belas. Mas não! Eram dois rostos pálidos e olhos de quem estava a sofrer e não há nada mais doloroso que a dor de duas crianças. A Helen falava-me de um dos monstros da sua cabeça enquanto queimava fósforos, um atrás do outro, sorrindo ao ver que a chama se agonizava até desaparecer em fumo acinzentado. Não resisti, na escuridão do quarto e do espírito acendi um também. Aquela pequena luz iluminou a divisão, e aquela pequena chama aqueceu a ponta do meu dedo, mas a mim não... e a minha alma tem um gosto mais frio do que café esquecido no balcão da cozinha. E a minha alma está mais sozinha do que uma igreja, apesar da fila de gente à porta.
Violeta
Wednesday, December 05, 2012
Sunday, December 02, 2012
Sunday, November 25, 2012
Tuesday, November 20, 2012
Monday, November 19, 2012
Dezembro: Click. O que se passa comigo? Eu nem sequer o conheço.
Janeiro: Ele é estranho e cativante, parece um poema, anda arrastando letras. Veste preto, mas é ofuscante.
Fevereiro: Não preciso de o sentir. Basta olhá-lo assim ao longe... tocar-lhe com os olhos. Sim, chega.
Março: Não te apaixones. É um amor impossível. Esquece isso.
Abril: Troco o mundo inteiro por um abraço teu. Não sei o que isto é, mas é bom.
Maio: O nosso mundo sorri e tudo está bem. Em segredo, mas bem.
Junho: É mentira, é tudo mentira. Tem de haver uma solução. Eu amo-te.
Julho: As paredes giram e o teto está a cair. O mundo deixou de existir e o tempo parou. Quero morrer.
Agosto: Como seria bom se estivesses aqui. Volta, volta, volta, volta!
Setembro: O tempo não passa, odeio-te, odeio-me. Há demasiados monstros por aqui.
Outubro: Cansei de lutar. Que venha o fim do mundo.
Novembro: Já passaram mais de cinco meses... ainda espero que voltes. Não acabou, nunca vai acabar. Amo-te como no primeiro dia.
Janeiro: Ele é estranho e cativante, parece um poema, anda arrastando letras. Veste preto, mas é ofuscante.
Fevereiro: Não preciso de o sentir. Basta olhá-lo assim ao longe... tocar-lhe com os olhos. Sim, chega.
Março: Não te apaixones. É um amor impossível. Esquece isso.
Abril: Troco o mundo inteiro por um abraço teu. Não sei o que isto é, mas é bom.
Maio: O nosso mundo sorri e tudo está bem. Em segredo, mas bem.
Junho: É mentira, é tudo mentira. Tem de haver uma solução. Eu amo-te.
Julho: As paredes giram e o teto está a cair. O mundo deixou de existir e o tempo parou. Quero morrer.
Agosto: Como seria bom se estivesses aqui. Volta, volta, volta, volta!
Setembro: O tempo não passa, odeio-te, odeio-me. Há demasiados monstros por aqui.
Outubro: Cansei de lutar. Que venha o fim do mundo.
Novembro: Já passaram mais de cinco meses... ainda espero que voltes. Não acabou, nunca vai acabar. Amo-te como no primeiro dia.
Sunday, November 11, 2012
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