Enquanto cuidava das rosas do seu jardim, a menina de papel ouviu um estranho canto que nunca antes escutara. Cric-Cric-Cric. Seria algo mecânico, pensou, alguém a dar corda a um relógio? Não, era um pássaro de corda que pousara na cerca branca que rodeava o seu jardim e o seu coração. Porém, este pássaro não precisava de corda para ter vida, ele dava corda a quem não vivia. Esse invulgar som, flutuou, então, sobre a relva húmida de orvalho e embalou a sua alma na mais bela canção. Tinha penas escuras, esse pássaro, e olhos de ébano. Era finais de inverno, inícios de primavera, e ela não teve como evitar oferecer-lhe o seu delicado coração, na esperança de que o pássaro ficasse para o verão. Porém, outrora, alguém lhe dissera que amar um pássaro é tê-lo pousado no dedo, sabendo que a qualquer momento ele poderá voar. Oh, e assim que o sol se elevara mais alto no céu, beijando as suas flores e trazendo calor aos seus dias, o pássaro mecânico, tão repentinamente, a deixou. Durante tanto tempo, ela acreditou que o seu amor retornaria e que aquele maravilhoso canto seria novamente o embalo dos seus sonhos e o seu despertar para as manhãs... Mas não, fora para sempre que o seu pássaro voara. Nos canteiros de rosas, brotaram papoilas e pequenas violetas das quais nasceriam narcisos. A menina de papel rasgara-se em flores. Mas, ressurgindo do fundo de si, colheu-lhes as pétalas e com elas fez vestidos.
Maria, das rosadas pétalas da infância e do perfume mais delicado da inocência.
Raquel, do encarnado requinte e da leveza dos seus modos inteligentes.
Raquel, do encarnado requinte e da leveza dos seus modos inteligentes.
Violeta, o seu distinto púrpura nas sensíveis flores que simbolizavam a riqueza
de um espírito lírico. E por fim..
de um espírito lírico. E por fim..
Teresa, dos narcisos que adoravam o seu próprio reflexo no lago, o amor próprio.

1 comment:
violeta então, dos seus traços mais cruéis nos passados mais negros. parecidos ou não gosto de te ler. beijo.
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