Geraste um tornado no meu espectro
e ensinaste-me que,
uma vez do avesso,
é impossível juntas as peças para voltar
às sílabas do nosso mais-que-perfeito e
errante pretérito.
Esperei-te e o meu espectro límpido
dissolveu-se na espuma ácida do desaparecimento.
O esquecimento não é senão uma
dádiva e um tormento.
Quando as aves voam rente ao céu,
o meu peito sente-se longe.
Estive a pensar em ti.
[escrituras em folhas soltas de cadernos e diários perdidos]
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Tuesday, November 12, 2013
Tuesday, October 22, 2013
28 de Maio de 2013
Terça-feira 18:38h
Hoje faz um ano que o deixei deixar-me. Flor de meu jardim, neve de meu mais gelado inverno, chuva dos meus olhos.
Um ano. Parece tempo suficiente, para a insuficiência de um tempo que não chegou para o retirar do poço (sem fundo) que eu sou- e então ele cai,
cai,
cai.
Continuamente ele cai, sem qualquer grito ou queda ou morte. Sem fim.
Morresse este pássaro que me envenena, morresse por dentro de mim, pois já nenhum regresso me faria voar em seus sonhos como antigamente, tampouco suas palavras me trariam magia e som de chuva. Hoje um ano que o vi partir e nunca mais voltar.
[Retirado de um diário abandonado]
Lembrar-me-ei sempre de ti e que "sempre gostamos de bosques".
Terça-feira 18:38h
Hoje faz um ano que o deixei deixar-me. Flor de meu jardim, neve de meu mais gelado inverno, chuva dos meus olhos.
Um ano. Parece tempo suficiente, para a insuficiência de um tempo que não chegou para o retirar do poço (sem fundo) que eu sou- e então ele cai,
cai,
cai.
Continuamente ele cai, sem qualquer grito ou queda ou morte. Sem fim.
Morresse este pássaro que me envenena, morresse por dentro de mim, pois já nenhum regresso me faria voar em seus sonhos como antigamente, tampouco suas palavras me trariam magia e som de chuva. Hoje um ano que o vi partir e nunca mais voltar.
[Retirado de um diário abandonado]
Lembrar-me-ei sempre de ti e que "sempre gostamos de bosques".
Sunday, July 14, 2013
o teu coração era gelado e denso, mas eu estava irremediavelmente apaixonada pelo inverno.
tudo, tudo nele- a chuva, o vento, o frio. àrvores que se despem de folhagem, a fina camada de gelo na janela pela manhã, os lábios gretados entreabertos de onde escapam sopros enevoados.
a chávena de café quente aconchegando as mãos e Blue Moon na aparelhagem.
mas o meu coração era primavera explosiva, lembras-te? era papoilas brotando em prados verdes, era o canto dos pássaros por entre as folhas novas e tenras, era o sol que aquece o rosto e o orvalho fresco de cada dia. ahah, era uma abelha! ou uma borboleta... que escolhia sempre a mesma flor onde pousar. e a minha pele tornava-se quente ao toque.
era quando te tocava que temia derreter-te em minhas mãos, cristal de gelo e ainda te sinto a falta em cada estação...
Friday, June 14, 2013
Com coroas de violetas enfeitando os cabelos, não dormi a noite passada.
Seja talvez por egoísmo- de querer ver-te uma última vez, ainda que em espasmos de infelicidade e esse... remorso?
- seja, mas eu quis.
E de flores tantas, a horas tantas, o sono não chegou, Sumire na cabeceira sob o olhar atento de Murakami, quantos segredos não me ousaste contar?
Perco-te, no tempo, e entre memórias enevoadas procuro-te tentando calcular o exato momento em que tudo mudou e em que rua estreita ou esquina a mescla de raiva-dor tomou o calor das tuas asas, querido.
Perdoa-me ter-te perdoado e não conseguir odiar-te mais do que
- te amo.
Violeta
Seja talvez por egoísmo- de querer ver-te uma última vez, ainda que em espasmos de infelicidade e esse... remorso?
- seja, mas eu quis.
E de flores tantas, a horas tantas, o sono não chegou, Sumire na cabeceira sob o olhar atento de Murakami, quantos segredos não me ousaste contar?
Perco-te, no tempo, e entre memórias enevoadas procuro-te tentando calcular o exato momento em que tudo mudou e em que rua estreita ou esquina a mescla de raiva-dor tomou o calor das tuas asas, querido.
Perdoa-me ter-te perdoado e não conseguir odiar-te mais do que
- te amo.
Violeta
Saturday, June 01, 2013
Caminhando por debaixo das luzes da cidade numa noite fresca anunciando verão, fugindo em passos adiantados para que mais ninguém a mim viesse de encontro e de encontro aos meus pensamentos. A passos tantos os meus pés calorosamente encontram a areia do rio, como amantes que emborcam álcool e de seguida amor, há muito apetecido. Deito-me, escutando as vozes de quem me segue o encalço e perdendo-me logo nas vozes de quem não o seguiu. Emborco memórias- não me lembrando, porém, de sequer chorar por ti, mas sei que morri e sei tão de cor a vida depois da morte que não precisaria de ler por entre linhas do corpo as vezes que de mim me perdi. Sei que passou um ano, mas há muito que o tempo deixou de ter medida, há muito que deixei de contar os dias. Os relógios são agora por estações- a que te conheci, a que te amei, a que te perdi, a que por ela me arrastei- com o peso dos dias e das rotinas de onde já não fazias parte. Sinto-te a falta tantas vezes quanto as que te detesto, querido, e soubesse eu roubar-te o brilho e devolvê-lo às estrelas ou não tivesse eu um coração de um só ritmo, o teu. Sob o lúgubre céu guarnecido de pérolas, contando eu as caídas, pois dizem que nos concedem desejos, e ainda antes de sequer pensar num pedido, já uma palavra se ergue em minha mente tão depressa quanto a estrela caiu- o teu nome. E um bater de asas se faz ouvir ao longe dentro do meu espírito e eu não sei o que faça- se me afogue no céu, se me afogue no rio. Mas pensando melhor, seja talvez no céu, porque cada estrela tem o teu nome, enquanto que o rio, apenas e só o meu reflexo.
Violeta de Carvalho
Monday, May 27, 2013
Talvez se o meu cabelo cortasse o ar delicadamente num rodopio- em passos de anjo e pequenos voos, braços arqueados como asas e pés descalços- soubesse eu dançar como aves- e cobriria os meus olhos de sombras para que os visses também, a eles, dançar. Talvez se os meus modos fossem mais delicados, como perfume de framboesa num jardim de inverno e com ponta dos meus dedos te encontrasse amor, pousando no chão do meu salto de mariposa em chamas, com a ponta dos dedos te derretesse a pele, qual neve. Encontrasse eu o segredo de tal beleza, não fosse eu mulher das palavras, e reproduzir em perfeição cada um desses gestos, e, exclamo suspiros, oh, oh... pudesse. Talvez pudesses também tu, gostar de mim.
Raquel Gonçalves
Saturday, May 25, 2013
Nunca fomos fogos indecisos, incendiando as veias, sangue em combustão. Nunca fomos nada disso de beijar nos lábios e de dar as mãos na rua. Tampouco éramos de palavras, apesar de ambos sermos feitos delas. Em contrapartida, eras o inverno, eu, primavera dos génios. De semelhanças tantas começamos a procurar pelas diferenças e tinhas realmente razão, em nada éramos iguais. Nunca fomos amor errante, apesar de todo o nosso amor ser um enorme erro, dirás. Já eu, calo o que te diria se estivesses aqui, calo-o no meu coração que nem as paredes do quarto ousam ouvir. Tenho-te um ódio tão grande quanto o meu amor por ti. Vejo-te em cada pássaro em cada fio, suspiro-te em cada pena de cada ave. Mas olhá-las, no mais alto dos voos e lembrar-me que nunca as poderei alcançar, como nunca te poderei alcançar de novo, pássaro. Nunca fomos promessas quebradas, porque nunca as proferimos antes. Mas fomos cartas rasgadas e correspondência que daria em livro. Fomos metáforas e alegorias e fomos inúmeros jogos, estilos e expressões. Fomos tanto, quase tudo, daquilo que já nada somos. Ainda bem que te conheci.
Raquel Gonçalves
Sunday, April 28, 2013
Aprendi a vestir-me confortavelmente neste humor amargo, é assim que me rio- amargamente- e por me veres rir já me julgas feliz. Às vezes sinto saudade de um abraço, sim, de alguém que me diga que vai ficar tudo bem, mas para quê?- se eu já não acredito. A realidade tenta abafar-me e quase me sinto rendida, mas Não!- grito- não... Posso não ter alternativa, nem escolher em que contexto viverei, pode até nem existir outra realidade para mim, mas não aceito viver em mentira. O meu amor por ti pode não ser real mas é verdadeiro. "Aceitamos o amor que julgamos merecer", recordo-me, por esta altura deves julgar que foste tu quem disse isto, ainda me lembro como gostavas de te misturar com as tuas personagens preferidas, assim como a tua preferência assentava na perspectiva que te convinha. Continuas leve como o vento, livre como o pássaro que és e eu não te odeio. Escolhe as tuas personagens da forma que quiseres, mas não me vejas como isso, uma perspectiva que te convém desviar só porque o autor disse. Guardo as tuas memórias, e tu roubaste-me as passadas e as que poderia vir a ter. O tempo deixou-se de sequências. Podes até não perceber o que digo, não faz mal, mas não te esqueças que também eu sou escritora, e que te escrevi antes de te perspectivares nas minhas palavras. Talvez devesses escrever a tua própria história. Talvez eu não devesse escrever a de mais ninguém.
Wednesday, April 24, 2013
Talvez hoje eu seja só nós cegos à espera de um desenlace- nós de quem cai em teias de aço feitas de enganos- ou então talvez seja apenas voos de pássaros à procura de céu- pássaros a quem nunca esse deus quis suspirar asas. De lábios gretados espero os teus, mais longe que o infinito- esbanjados na memória dos escassos instantes em que se provaram, os meus e os teus. Nunca demasiado tempo foi tempo suficiente para matar a vida que houve em mim- embora já estivesse eu morta da vida que o teu amor me deu. Talvez esse amor fosse um templo antigo- desses cheios de mistérios e segredos- e por isso ruiu- porque quisemos saber demais. Oh, esses escombros de onde tentei salvar-te(me), oh, o desespero de não te ter! E a memória... Em solavancos, em flashes de ti, atraiçoa-me a todas as horas e em sonhos onde surges mais belo que a perfeição e tão doloroso como mil espinhos de rosa! As palavras que suspiravas em hálitos de café e faces coradas, em lágrimas que escondias e soluços que, um ou outro, escapavam pelos jardins dos meus cabelos. Não sei que ódio é este com que te amo. Não sei que raiva é esta com que te quero- com cada poro do meu corpo, a arder de sede da tua pele. Não sei, que diabo faço, ainda a escrever para ti.
Teresa P. Viana
Teresa P. Viana
Sunday, April 14, 2013
guardei poemas nos bolsos, escritos no papel frágil de guardanapos de café, a textura das tuas penas. arranhei a preto palavras e escrevi-te em versos, tranquei-te, julgo, neles e depois queimei-os com o isqueiro que roubei ao papá. mentira. não seria capaz de te magoar, mesmo que em palavras. mas disse aos amigos, vou à casa de banho, e queimei-me a mim com o isqueiro que roubei ao papá para não te magoar a ti. amo-te. se é loucura, doença, não sei. talvez seja. e talvez faças bem em odiar-me. mas eu amo-te. desculpa.
Thursday, April 04, 2013
Os seus dedos cheiravam a tangerina e migalhas laranja iam sendo deixadas sobre a relva acabada de cortar- cheira a erva a morrer- delicioso aroma. O sol encobria-lhe as dores que voltaram e quase desfaleceu sobre si mesma quando as sentiu chegar, mas algo a distraiu- um pássaro- negro como carvão, como os olhos que a fitavam- ao longe. Respirou fundo e abanou a cabeça às tonturas que não provinham da doença- mais ar, ela pensou- e as pernas tremiam-lhe sob o peso meio-morto. Ela estava tão doente e assustada, mas a mamã não estava em casa e não havia um abraço onde chorar. No muro de pedra, o pássaro ainda lá estava, os seus dedos ainda cheiravam a tangerina e a erva moribunda estava mais perto agora. Afagou-lhe a textura quando o sol não quis ver mais, estavam aranhas debaixo das folhas caídas, mas ela não se assustou, tão longe de si que se esquecera do medo. O vento primaveril beijou-lhe o pescoço, resfriando-lhe os suores frios, estava tão doente e tão assustada. Se alguma coisa correr mal, ninguém vai saber porquê. E tu que me olhas, porque não voas também? Odeio pássaros, odeio!- disseram os seus olhos, mas os pássaros não compreendem olhares. E quando as dores adormeceram e ela trouxe tangerinas nos bolsos, o pássaro ainda estava lá, por dentro de si, sem compreender porque é que tinha de voar.
Teresa.
Wednesday, April 03, 2013
Colho os pedaços de música que me sopram aos ouvidos,
Como vento, fresco, em tarde de agosto.
Mas estou demasiado quente,
Febril, como lareira no inverno,
E os delírios consomem-me o que de bom poderia, ainda,
Restar do que eu era...
Isto não é um poema,
São só uns versos...
Não há qualquer poesia, em mim, hoje
Como o poço seco do livro
Onde Toru desceu
E por entre outros mundos se perdeu,
Ou, quem sabe, encontrou.
Ácido o sabor do meu beijo,
Amarga a minha pele,
Que só eu pressinto, porque roço no meu corpo,
Sem o explorar.
Não me sinto só, minto. Tenho febre.
Crescem-me penas, que logo arranco,
E dói e eu sangro.
Mas com elas te escrevo,
Pássaro.
Gostava que gelasses por dentro, juro,
Que te agonizasses nas palavras que vomitas, as mais belas.
Gostava que ardesses por dentro, a sério
E que me implorasses a morte como o perdão.
Mas desses como tu, não surge arrependimento,
Desses que são primavera em flor no jardim do demónio.
Mas não falemos de demónios ou de anjos.
Não falemos, não pensemos, sequer, antes que
Poesia se faça e
Isto são só uns versos....
Violeta de Carvalho
Como vento, fresco, em tarde de agosto.
Mas estou demasiado quente,
Febril, como lareira no inverno,
E os delírios consomem-me o que de bom poderia, ainda,
Restar do que eu era...
Isto não é um poema,
São só uns versos...
Não há qualquer poesia, em mim, hoje
Como o poço seco do livro
Onde Toru desceu
E por entre outros mundos se perdeu,
Ou, quem sabe, encontrou.
Ácido o sabor do meu beijo,
Amarga a minha pele,
Que só eu pressinto, porque roço no meu corpo,
Sem o explorar.
Não me sinto só, minto. Tenho febre.
Crescem-me penas, que logo arranco,
E dói e eu sangro.
Mas com elas te escrevo,
Pássaro.
Gostava que gelasses por dentro, juro,
Que te agonizasses nas palavras que vomitas, as mais belas.
Gostava que ardesses por dentro, a sério
E que me implorasses a morte como o perdão.
Mas desses como tu, não surge arrependimento,
Desses que são primavera em flor no jardim do demónio.
Mas não falemos de demónios ou de anjos.
Não falemos, não pensemos, sequer, antes que
Poesia se faça e
Isto são só uns versos....
Violeta de Carvalho
Tuesday, March 26, 2013
As lágrimas que escorriam na janela foram sempre as suas preferidas, as nuvens que se agonizavam e se espremiam de si, mas ela não queria que as nuvens rebentassem, porque tornar-se-iam leves e deixariam de sofrer. A dor alheia era um perfume de maresia e o agasalho fresco das noites de verão, ela não suportaria viver sem isso. Abriu a janela e chorou sal quando as lágrimas das nuvens lhe beijaram as faces e estendeu-lhes a mão num simultâneo pedido de consolo e tentativa de confortar. A pureza húmida manchou-lhe a blusa primaveril de rosados tons quando a neve da sua pele derreteu carmim, também o seu corpo chorava. Algures entre as laranjeiras em tempestade, ela escutou o canto de um pássaro e o seu coração não se quebrou, mas aqueceu. Estás aqui? Ela perguntou, sorriso triste, de olhos fechados e réstia de amor aberto, porém, tudo o que lhe respondeu foram cânticos de inverno e correntes de morte. O corpo tremia ao frio e as pernas cediam como vidros finos que se partem. E os seus pés calcaram descalços todas essas pequenas lâminas em chamas.
Violeta de Carvalho
Violeta de Carvalho
Saturday, March 16, 2013
Perscruto entre as mil folhas o detalhe que escapou num livro coberto de pó, mas que nunca deixou de ser lido. Enrolo a areia em ondas de palavras diluindo o conteúdo, mas o mar vai e vem, só nunca fica. Cheios de flores escondem-se os espinhos que ninguém vê, mas que ninguém magoam, até que as flores secam de tanto não serem tocadas, beijadas, cheiradas, lidas. Rainha das metáforas, ele chamou, mas ele não existia. Havia uma jarra de rosas no centro da mesa, regadas com ironia, mas nunca ninguém as encontrou. Os pássaros nunca ficam no inverno, mas o meu foi-se no verão. Pássaro da sorte, pássaro do azar, do amor mais forte e impossível de alcançar, rimei, mas estava a janela aberta e tudo o que eu falei o vento levou.
Violeta de C.
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