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Saturday, April 20, 2013

da persiana semi-cerrada escorre uma nebulosa luz, parece gelada ao toque, quis tocar-lhe e deixá-la quebrar-me, oxalá me tornasse pó. vasculho no interior de um poço que há muito secou o que estará de errado em mim. ouvi a resposta algures no eco desse grito, mas não conseguia recordar-me das palavras exactas, porque nunca presto atenção à minha salvação. estava cansada demais para me importar, estava sozinha há demasiado tempo para querer que alguém viesse e ficasse. devia mandar-te embora, porque tudo o que eu faço é esmagar corações, pequenas nectarinas doces a escorrer amor das minhas mãos. sou terra molhada e aroma de chá, perfume de cereja e sabor a limão. não faço sentido, sei-o bem. tampouco me acho no direito de ser coerente quando tudo me parece fingido. não devia querer que ficasses, se o que respiro são caprichos e se tudo pelo que espero é em vão. a minha melhor memória não é a minha melhor recordação, porém, como um espinho envenenado, lateja no meu coração. há penas por todo o lado e até o céu é ébano por vezes. não tentes salvar-me, não vale a pena. e o que tinha para te dizer é que nunca poderia matar-te de vida se eu ainda vivo de morte.

Friday, April 12, 2013

Algo sobre o vento daquela manhã lhe escapara, o sussurro, o presságio, o código de acesso à sua alma. Estava lá escrito, no mais leve ar, que todos os seus sonhos estavam ao alcance de uma lua. Do outro lado do céu, dois olhos que a procuravam mas nunca a viram, sem saberem, porém, que já a tinham encontrado. Esperavam-se, rezando ao acaso, de esperanças no destino, escolhendo as ruas mais prováveis a encontros desencontrados, sabendo que, algures, o outro olhava o mesmo céu e escutava o mesmo vento que o seu. Deixavam, no entanto, que os seus corpos os conduzissem pelo peso da rotina, já mal levantavam os olhos do chão no desassossego das almas, na pérfida tristeza que os apunhalava nas horas vagas. O tempo descompassou no prolongar das horas. Começou a chover, pela noite. E eles nunca estiveram tão sozinhos, tão longe de si próprios, ainda que, apenas à distância de uma lua.  

Monday, April 08, 2013

       Ninguém bate à sua porta faz meses, também já ninguém telefona. Contudo, a caixa de correio está cheia de publicidade que ela não lê e às mensagens que foram passadas por debaixo da porta ela não responde. Uma camada de pó forma-se sobre as estantes dos livros mais que lidos, a única coisa que alguma vez lhe interessou, mas que não tem mais importância. A cama está feita e no sofá um emaranhado de cobertores ainda quentes, porque, no mundo, não havia buraco suficientemente confortável onde pudesse esconder-se, cobarde que era para sofrer. Na banca da cozinha cresce loiça suja que ela não se preocupou em lavar. Porém, no quarto, que agora é apenas seu, tão cruelmente seu, as gavetas da cómoda estão vazias e, intacta, está a porta do armário aberta tal como foi deixada faz meses. A cama gelou sobre as cinzas do que costumava ser fogo, mas ela prefere não se lembrar do calor, quem sabe, assim, não dê pela presença do frio. Estendida sobre a colcha está uma camisa branca que foi deixada para trás, assim como ela, faz meses e, assim como a ela, nunca ninguém voltou para a vir buscar. Sobre o pó da mesa de cabeceira, está uma moldura voltada para baixo, embora não faça tanta diferença assim, pois ela conhece aquela imagem de cor- dois sorrisos sinceros e de amor os contornos que definem os olhos, que a olham, mas que a não veem. Já ninguém a vê, aliás, faz meses, e aliás, faz meses que faz um ano. Faz um ano que se deu o primeiro abraço, tão abandonado como a memória que o guarda, tão triste como esta casa abandonada e tão esquecido como a alma que se foi embora deixando apenas uma camisa branca sobre a cama. 

Wednesday, March 27, 2013

Sorvo em pequenos goles, muito pequenos, o fogo bege e cremoso. Escorre o baileys pela garganta deixando o travo adocicado na boca. Mordo o lábio, não quero que esse fogo se estinga, quero antes evaporar essa (m)água onde se me afogaram as palavras. A noite cerca-me a alma cuja fragilidade chora, porém, sinto uma estrela perfurar o negrume, não me sinto tão só. Beijar-lhe-ia as delicadas expressões se estivesse ao meu alcance, mas das estrelas só nos chega o brilho. Oh, e a minha estrela tem o melhor cintilo. Perco as horas entre correspondência que daria em livro, citando fraturas das almas, embalando os sentidos em músicas que silenciam. Nem tudo está perdido. De repente, deixo de ouvir o eco da minha alma, porque, numa sala de duas vozes, os ecos misturam-se. Escorrega o sossego como o álcool, porque, da tristeza, já só resta parte.

Saturday, March 16, 2013

Rasgo páginas de um diário que nunca escrevi, porque lá estavam escritos futuros que não aconteceram. Perdi-me no tempo em que a minha alma se rasgou em farrapos de luas e de sóis e estendo o braço à procura de um sonho, mas roubaram-mos, a todos eles. E quase morro de tristeza por saber que os filhos de olhos castanhos serão de outra mulher e que a vida que seria a minha não será a minha. O chão está demasiado perto para quem outrora tocou o infinito com as pontas dos dedos. Ouso levantar-me mas as forças que não possuo esmagam-me os ossos, quis converter-me em pó e quis ter a janela aberta nesse momento. Os tornozelos ardem como chamas de velas num cemitério onde jazem as falecidas paixões. Há um poço no jardim que me levaria ao fim do mundo, mas a mamã decidiu tapá-lo no inverno passado quando ainda esvoaçavam as aves em redor de corações de pequenas rãs. Como na história de uma rã que se apaixonou por um pássaro, e que, mesmo assim, nunca perdeu a esperança.

Perscruto entre as mil folhas o detalhe que escapou num livro coberto de pó, mas que nunca deixou de ser lido. Enrolo a areia em ondas de palavras diluindo o conteúdo, mas o mar vai e vem, só nunca fica. Cheios de flores escondem-se os espinhos que ninguém vê, mas que ninguém magoam, até que as flores secam de tanto não serem tocadas, beijadas, cheiradas, lidas. Rainha das metáforas, ele chamou, mas ele não existia. Havia uma jarra de rosas no centro da mesa, regadas com ironia, mas nunca ninguém as encontrou. Os pássaros nunca ficam no inverno, mas o meu foi-se no verão. Pássaro da sorte, pássaro do azar, do amor mais forte e impossível de alcançar, rimei, mas estava a janela aberta e tudo o que eu falei o vento levou. 
                                                                                                                                     Violeta de C.

Tuesday, January 01, 2013

Agora apercebo-me que terminou tudo, e apesar de não confiar em Deus, só ele sabe como eu não estou preparada para um fim. Mesmo que esse fim seja refrescante e apaziguador como um copo de limonada no verão. O nó nas entranhas, que o amor doente que tinha por ti fazia sentir, desfez-se como quem puxa um fio de esparguete do prato cheio. Como que se sorvesse a massa ao som de cada badalada e, rapidamente, fosse deixando a mesa fria e despida. Não há amor que alimente agora, mas também já não existe qualquer fome. E só Deus sabe como eu não estava pronta para estar saciada.

Wednesday, October 24, 2012

Se naquela altura ela lhe dissesse que ao seu mundo faltava um pedaço, ele completava-o com parte do seu, no entanto, foi do tempo que nunca se falou. Talvez tenha sido essa a falha grave, a fenda que levaria a barragem a inundar todo o bosque verde que haviam criado para viver. Havia por lá uma pequena casa de papel e uma pequena cabana de madeira, que era rodeada por uma cerca branca, separadas por um riacho. Eles haviam construído uma ponte de madeira entre as duas casas...mas uma madeira demasiado luxuosa para ser permitida pela balança da vida. Demasiado boa para ser real: Ébano. Ela habitava a pequena cabana de madeira e acendia a sua lareira no inverno. O rapaz de papel, que tinha frio, entrou sem pedir licença. Colheu dos canteiros uma rosa aqui e outra além, mas pisou as doces violetas que cresciam todo o ano... Cresciam, pretérito imperfeito. Deixou pegadas no seu lugar e quando o fogo se tornou leves cinzas ele partiu e tornou-se leves saudades. Leves, porque a dormência entretanto tomara o lugar do pânico. Ela ainda o ama, mas ele já não existe. Deixou memórias de um beijo, de um amo-te noutra língua e de um desejo. Deixou uma pena porque voou. Sim, porque o rapaz de papel transformou-se num pássaro negro e a rapariga das rosas numa pequena borboleta ou quem sabe? Numa pisada violeta. 
E não viveram felizes para sempre. 
Fim.