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Friday, April 12, 2013

Algo sobre o vento daquela manhã lhe escapara, o sussurro, o presságio, o código de acesso à sua alma. Estava lá escrito, no mais leve ar, que todos os seus sonhos estavam ao alcance de uma lua. Do outro lado do céu, dois olhos que a procuravam mas nunca a viram, sem saberem, porém, que já a tinham encontrado. Esperavam-se, rezando ao acaso, de esperanças no destino, escolhendo as ruas mais prováveis a encontros desencontrados, sabendo que, algures, o outro olhava o mesmo céu e escutava o mesmo vento que o seu. Deixavam, no entanto, que os seus corpos os conduzissem pelo peso da rotina, já mal levantavam os olhos do chão no desassossego das almas, na pérfida tristeza que os apunhalava nas horas vagas. O tempo descompassou no prolongar das horas. Começou a chover, pela noite. E eles nunca estiveram tão sozinhos, tão longe de si próprios, ainda que, apenas à distância de uma lua.  

Monday, April 08, 2013

       Ninguém bate à sua porta faz meses, também já ninguém telefona. Contudo, a caixa de correio está cheia de publicidade que ela não lê e às mensagens que foram passadas por debaixo da porta ela não responde. Uma camada de pó forma-se sobre as estantes dos livros mais que lidos, a única coisa que alguma vez lhe interessou, mas que não tem mais importância. A cama está feita e no sofá um emaranhado de cobertores ainda quentes, porque, no mundo, não havia buraco suficientemente confortável onde pudesse esconder-se, cobarde que era para sofrer. Na banca da cozinha cresce loiça suja que ela não se preocupou em lavar. Porém, no quarto, que agora é apenas seu, tão cruelmente seu, as gavetas da cómoda estão vazias e, intacta, está a porta do armário aberta tal como foi deixada faz meses. A cama gelou sobre as cinzas do que costumava ser fogo, mas ela prefere não se lembrar do calor, quem sabe, assim, não dê pela presença do frio. Estendida sobre a colcha está uma camisa branca que foi deixada para trás, assim como ela, faz meses e, assim como a ela, nunca ninguém voltou para a vir buscar. Sobre o pó da mesa de cabeceira, está uma moldura voltada para baixo, embora não faça tanta diferença assim, pois ela conhece aquela imagem de cor- dois sorrisos sinceros e de amor os contornos que definem os olhos, que a olham, mas que a não veem. Já ninguém a vê, aliás, faz meses, e aliás, faz meses que faz um ano. Faz um ano que se deu o primeiro abraço, tão abandonado como a memória que o guarda, tão triste como esta casa abandonada e tão esquecido como a alma que se foi embora deixando apenas uma camisa branca sobre a cama. 

Sunday, March 24, 2013

Talvez fosse um pedido do sol, que naquele momento se centrava sobre a copa das árvores do pequeno bosque adiante e falecia em horas esfumadas dos relógios. Um pedido para que nos aproximássemos mais e para que ele me deixasse passear pelas ondas do seu cabelo. O sol que tão ternamente nos quis beijar as faces e amar-lhes a luz, pois, de alguma forma, adivinhara a sombra que há muito existia nos nossos corações. Sentia-me tão confortável agasalhada entre tanta nudez. As quentes roupas espalhadas em mim e os meus medos nus e visíveis. Não consigo sair de mim, sabes? Toda a raiva que sinto não sai de mim. Faço-me pagar pelos erros dos outros. A mão dele escorregou para a minha, perdida nesses labirintos de ar. Não há nada mais belo do que duas almas que se encontram, porque outrora se perderam. Balançou o seu corpo e cobriu-me de si. Senti-lhe o peso meio-morto e o hálito quente e sedutor. Tinha fumado um cigarro momentos antes, mas tudo nele era baunilha e amêndoa e não havia forma de resistir-lhe. É por isso que fazes isto? Disseram os seus olhos doces, na forma rude que era a sua maneira de ser. E quando a minha mão rastejou entre o vale dos nossos corpos no intuito de mostrar-lhe os meus rubros rios, ele apertou-me o pulso e esbarrou-o contra a terra. Não quero ver, rugiu. E o dorido braço faleceu sobre as ervas e rendeu-se. Beijar-me-ias as marcas como beijas a minha pele lisa? Mas não, não havia uma única nota de esperança na voz trémula que não fui capaz de conter. Contudo, a sua fortaleza ruiu por não esperar ser confrontada com delicada fragilidade, oh, ele nunca me tinha visto chorar... Perdoa-me, sussurrou. E também ele chorou quando, por fim, provou os tais rios com o mesmo amor com que provara o areal.

                                                                                                                          Iolanda Oliveira