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Sunday, March 24, 2013

Talvez fosse um pedido do sol, que naquele momento se centrava sobre a copa das árvores do pequeno bosque adiante e falecia em horas esfumadas dos relógios. Um pedido para que nos aproximássemos mais e para que ele me deixasse passear pelas ondas do seu cabelo. O sol que tão ternamente nos quis beijar as faces e amar-lhes a luz, pois, de alguma forma, adivinhara a sombra que há muito existia nos nossos corações. Sentia-me tão confortável agasalhada entre tanta nudez. As quentes roupas espalhadas em mim e os meus medos nus e visíveis. Não consigo sair de mim, sabes? Toda a raiva que sinto não sai de mim. Faço-me pagar pelos erros dos outros. A mão dele escorregou para a minha, perdida nesses labirintos de ar. Não há nada mais belo do que duas almas que se encontram, porque outrora se perderam. Balançou o seu corpo e cobriu-me de si. Senti-lhe o peso meio-morto e o hálito quente e sedutor. Tinha fumado um cigarro momentos antes, mas tudo nele era baunilha e amêndoa e não havia forma de resistir-lhe. É por isso que fazes isto? Disseram os seus olhos doces, na forma rude que era a sua maneira de ser. E quando a minha mão rastejou entre o vale dos nossos corpos no intuito de mostrar-lhe os meus rubros rios, ele apertou-me o pulso e esbarrou-o contra a terra. Não quero ver, rugiu. E o dorido braço faleceu sobre as ervas e rendeu-se. Beijar-me-ias as marcas como beijas a minha pele lisa? Mas não, não havia uma única nota de esperança na voz trémula que não fui capaz de conter. Contudo, a sua fortaleza ruiu por não esperar ser confrontada com delicada fragilidade, oh, ele nunca me tinha visto chorar... Perdoa-me, sussurrou. E também ele chorou quando, por fim, provou os tais rios com o mesmo amor com que provara o areal.

                                                                                                                          Iolanda Oliveira

Friday, March 22, 2013



    Achando os seus recortes bonitos, ele pousou os lábios sobre a sua pele dorida e entre travos de amor, ambos deixaram que o dia chegasse ao fim. Ela, procurando apenas o calor no corpo dele, e ele, encontrando o sentido da sua vida no maior grito do seu delicado desejo. Pela madrugada, porém, seduzida pelo veludo tóxico da insónia, ela descoseu as suas mágoas e segredou-lhe um perdão que ele nunca chegaria a ouvir. Sob a luz fraca da lâmpada do espelho da casa de banho, perscrutou as suas profundezas à superfície de si e logo descobriu um oceano cujas correntes eram cada vez mais fortes. Ela estava atenta ao súbito silêncio do fim e ansiava afogar-se nele. Pousou diante do seu reflexo despido e observou cuidadosamente os rastos do amor serem preenchidos por rios. E dos seus olhos escuros jorraram pequenos cristais de lágrimas, porque, afinal, a sua morte não era poesia, mas o odor acre do líquido quente que agora pisava e as sombras que só aos seus olhos surgiam estavam já perto, demasiado perto. Os joelhos ousaram beijar o chão de mármore uma última vez e o corpo mole que lhe pertencia soltou o seu último suspiro, que ecoou pelos corredores de uma casa abandonada e se fez ouvir na alma adormecida do quarto ao lado. Ecoou desde a dormência sonolenta ao despertar em pânico, mas… já não havia nada sobre o que chorar, derramado estava todo o seu interior. Ele ajoelhou-se perante a sua falecida paixão e, achando os seus recortes os mais belos de sempre, pousou os lábios, contorcidos de dor, sobre os dela num último adeus. 

                                                                                                                       
 Peço desculpa se estiver muito pesado, mas esta sou eu a ser eu mesma na literatura que há em mim.