Talvez fosse um pedido do sol, que naquele momento se centrava sobre a copa das árvores do pequeno bosque adiante e falecia em horas esfumadas dos relógios. Um pedido para que nos aproximássemos mais e para que ele me deixasse passear pelas ondas do seu cabelo. O sol que tão ternamente nos quis beijar as faces e amar-lhes a luz, pois, de alguma forma, adivinhara a sombra que há muito existia nos nossos corações. Sentia-me tão confortável agasalhada entre tanta nudez. As quentes roupas espalhadas em mim e os meus medos nus e visíveis. Não consigo sair de mim, sabes? Toda a raiva que sinto não sai de mim. Faço-me pagar pelos erros dos outros. A mão dele escorregou para a minha, perdida nesses labirintos de ar. Não há nada mais belo do que duas almas que se encontram, porque outrora se perderam. Balançou o seu corpo e cobriu-me de si. Senti-lhe o peso meio-morto e o hálito quente e sedutor. Tinha fumado um cigarro momentos antes, mas tudo nele era baunilha e amêndoa e não havia forma de resistir-lhe. É por isso que fazes isto? Disseram os seus olhos doces, na forma rude que era a sua maneira de ser. E quando a minha mão rastejou entre o vale dos nossos corpos no intuito de mostrar-lhe os meus rubros rios, ele apertou-me o pulso e esbarrou-o contra a terra. Não quero ver, rugiu. E o dorido braço faleceu sobre as ervas e rendeu-se. Beijar-me-ias as marcas como beijas a minha pele lisa? Mas não, não havia uma única nota de esperança na voz trémula que não fui capaz de conter. Contudo, a sua fortaleza ruiu por não esperar ser confrontada com delicada fragilidade, oh, ele nunca me tinha visto chorar... Perdoa-me, sussurrou. E também ele chorou quando, por fim, provou os tais rios com o mesmo amor com que provara o areal.
Iolanda Oliveira

