Eu só não sei em que direção se perdeu o sentido das palavras nem em que estrada se perdeu o mapa de mim. Seco as mãos no lençol com bordados de rosas, mas volto a rebentar em rios e assim meio-submersa-meio-à-tona sei, creio, que o melhor mesmo é deixar-me afogar. As rosas dos lençóis não têm espinhos. Sinto-me sozinha aqui e está a acontecer outra vez, tremo. Sinto-me culpada mas não me lembro a quem devo pedir perdão, é confuso, helen, oh helen. porque dentro de mim há um abismo e em noites como esta não existe sequer luar, eu dei um passo em falso e não era um sonho, era eu- a cair, cair, cair- outra vez. Não consigo perceber se está frio ou calor, sei que tremo, mas tenho a pele suada e está tudo enevoado, como se eu fosse um palco e o mundo a plateia, e a minha mente a cortina, sabes, é isso. há pouco escutei um ruído qualquer, um alarme, mas não me lembro de onde vinha e depois ele cessou, porém aquele eco manteve-se, irritantemente, aqui. Começo a ficar assustada, tu já nem sequer existes e os pássaros voam no verão ao contrário do que dizem, as rosas não têm espinhos e o ruído permanece. É confuso e eu sinto-me culpada, estou sozinha. Outra vez.
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Saturday, July 13, 2013
Thursday, February 28, 2013
O piano de Helen
«(...) Foste
a primeira mulher que eu amei verdadeiramente. Senti isso quase instantaneamente desde o
primeiro momento em que te vi, éramos nós apenas duas crianças na tenra idade de sete anos. Contudo, só me
apaixonei loucamente por ti anos mais tarde, quando coisas terríveis começaram a acontecer
em teu redor e ficavas pior de dia para dia. Ainda que sofresses mais do que podias suportar, tornaste-te numa jovem bela e inteligente, talvez até demais, tendo em conta que eras ainda tão nova. Nunca conheci alguém tão perspicaz, que me conhecesse tão bem ao ponto de me completar as frases e julgo que era esse jogo mental que me cativava mais em ti. E eu nunca consegui entender como é que alguém como tu podia gostar tanto de alguém como eu. Também me amavas, embora não estivesses apaixonada por mim. Porém, sabias perfeitamente o que eu sentia por ti, sem eu precisar sequer de dizer, pois lias nos meus
olhos o que se passava dentro de mim ainda antes de eu própria conseguir compreender. Mas isso nunca te incomodou, nem tampouco te afastou de mim. Costumavas dizer-me que eu via
beleza e que reparava em detalhes onde mais ninguém os podia ver e, de facto, havia algo em
ti e na forma como lidavas com a doença que, de uma forma bizarra, era bela.
Como o sorriso trémulo que te escapava quando alguém reparava nas marcas de
cansaço abaixo dos contornos dos teus olhos, o toque gélido da tua mão no meu rosto
quando me prometias que ias ficar bem ou a naturalidade com que limpavas as
gotas de sangue que por vezes escorriam dos teus pulsos para beijar as teclas do teu
piano. Estavas tremendamente fraca, mas era dessa mesma fragilidade que arrancavas as
forças para mais um dia, dizendo, "só mais
um dia e ficaremos bem", embora ambas soubéssemos, à partida, que nunca ficaria tudo bem. Agora que penso nisso, querias desesperadamente acreditar nas tuas próprias mentiras, como que se por fingires vezes suficientes elas acabassem por se tornar reais. Foste a primeira mulher que eu amei, Helen, e a primeira que me deixou. Deixando o mundo. (...)»
Isto é um pequeno excerto de um conto que comecei a "tentar escrever", inspirado na minha história com a Helen, há bastante tempo. Grande parte das descrições coincidem com momentos reais vindos das minhas memórias, porém, não se trata de uma narração exacta da realidade. Por exemplo, na vida real, a minha Helen não morreu, o que (sim, sei que pode parecer estranho) torna tudo muito mais complexo e difícil de entender. Nunca acabei este conto, porque chegando precisamente a este ponto tornou-se doloroso. Mas hoje, enquanto organizava o meu humilde "material literário" no computador encontrei-o e sei que está inacabado, confuso e um tanto vago, até mesmo porque ainda não consegui expressar as entrelinhas disto tudo, mas, enfim, espero que gostem...
Friday, February 22, 2013
Esta imagem leva-me de volta a um passado onde a infância se projetava em sombras geladas e onde as lágrimas de pequenas crianças haviam secado, por excesso de uso. Uma pequena bailarina de cabelos em tons de mel, cujas palavras eram de inverno e cujo coração falecia como folhas de outono e uma menina de papel onde a primavera fervilhava no espirito guarnecendo o sangue de aroma a rosas. Eu não sabia dançar, mas tocava violoncelo aos seus rodopios. Éramos duas crianças cuja infância se projetou em sombras. Demasiado tenras e delicadas para estarmos a sofrer. Ao mesmo ritmo que a minha alma se multiplicava em inúmeras facetas e estados de humor, a dela congelava lentamente e dividia-se sobre si, até sobrar coisa quase nenhuma. Mais tarde, os seus pequenos pés deixaram os rodopios e eu pousei o arco. No entanto, os seus dedos descobriram o amor nas teclas do piano enquanto eu a acompanhava a cantar. A doença escutava à porta, esperando o melhor momento. Um dia chegou, e já não éramos crianças delicadas e tenras. Haveriam de chegar lágrimas de sangue e suspiros gelados. Até que, certa vez, deixei de ouvir o amor do seu piano.
Raquel Gonçalves
Raquel Gonçalves
Wednesday, January 02, 2013
Querida Helen,
Recordei-me hoje de quando me disseste, teríamos nós cerca de nove ou dez anos, que as noites eram a pior coisa do teu dia. Não conseguias calar os ruídos da tua cabeça quando fechavas os olhos e, por isso, não podias adormecer. Meses mais tarde fora-te diagnosticada uma depressão e deram-te comprimidos para dormir. Dormias de noite, mas tinhas mais alucinações durante o dia. E eras tão nova e tão bela... não era suposto estares a sofrer...
Eu era também demasiado nova e bela para perceber o que se estava a passar contigo, mas hoje, querida Helen, compreendo o que me dizias. E também eu não consigo adormecer. E eu só queria que ainda estivesses aqui...
Monday, December 10, 2012
O cansaço de uma noite de insónias envolve-me todo o corpo, entorpecendo-o e dando livre acesso aos delírios. Doo-me e magoo-me sem dó. Estou fria e o gato está quente. O gato dorme e eu invejo-o. Sinto a alma mais fraca e gasta que as solas dos sapatos de um sem abrigo, mas dou gozo às más sensações e chamo-as. Venham, venham todas de uma vez só! Levem-me. Arrasto-me de um segundo para o outro e no entretanto já o tempo fugiu. Não era suposto custar tanto viver. Ao contrário de Campos, eu não tenho um lugar onde descansar, nem aqui nem em lado algum, nem em tempo algum, nem em infância alguma. Na lúgubre noite que passou, ouvi o ruído de uma caixa de fósforos no bolso do casaco e aí essa infância veio-me à memória: quem nos visse pela janela certamente pensaria que estaríamos simplesmente a brincar, a Helen e eu em corpos de crianças tenras e belas. Mas não! Eram dois rostos pálidos e olhos de quem estava a sofrer e não há nada mais doloroso que a dor de duas crianças. A Helen falava-me de um dos monstros da sua cabeça enquanto queimava fósforos, um atrás do outro, sorrindo ao ver que a chama se agonizava até desaparecer em fumo acinzentado. Não resisti, na escuridão do quarto e do espírito acendi um também. Aquela pequena luz iluminou a divisão, e aquela pequena chama aqueceu a ponta do meu dedo, mas a mim não... e a minha alma tem um gosto mais frio do que café esquecido no balcão da cozinha. E a minha alma está mais sozinha do que uma igreja, apesar da fila de gente à porta.
Violeta
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