promete-me que teremos sempre aquele terraço, ao sol
onde dançamos em silêncio, rodopiando
e essa promessa é a maior de amor e não há mais nada abaixo
desse terraço, acima do céu. tudo o que há-
o cheiro a bolo de chocolate ao sol
e tu e eu e o refugio.
prometes?
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Wednesday, May 25, 2016
Tuesday, December 16, 2014
a barca das almas negras
o que faço primeiro?
há uma fome contorcionista
que zumbe e arrefece,
mas sou incapaz de pensar
ninguém fez chover lá fora
mas haviam nuvens algures
e estava frio na sala- o chão gelado.
ainda assim, agachaste-te
e era tão sólida a amargura
que as lágrimas se prendiam aos ossos.
doeu-te quando choraste?
nunca te ouvi sofrer,
mas sentei-me à beira de um rio
e vi passarem os barcos
e o entulho
a tempestade.
hei
lembraste de quando o verão durou uma semana?
quando te dei a mão e disse
tatua esta sensação na tua pele, meu amor.
mas sentei-me à beira de um rio
e vi passarem os barcos.
disse-me o barqueiro que estavam lotados
não havia espaço para o amor,
mas eu entrei na água escura
e nadei.
alcancei a barca, mais tarde.
o importante,
não foi o frio que demorou para nos encontrarmos
não foram... as ondas
não é o inverno
nem as vozes que te fazem chorar
sussurei ao barqueiro:
o preto assenta-te bem
e ele,
cantou para mim.
hei
estou a abraçar-te. cheiras bem
há uma fome contorcionista
que zumbe e arrefece,
mas sou incapaz de pensar
ninguém fez chover lá fora
mas haviam nuvens algures
e estava frio na sala- o chão gelado.
ainda assim, agachaste-te
e era tão sólida a amargura
que as lágrimas se prendiam aos ossos.
doeu-te quando choraste?
nunca te ouvi sofrer,
mas sentei-me à beira de um rio
e vi passarem os barcos
e o entulho
a tempestade.
hei
lembraste de quando o verão durou uma semana?
quando te dei a mão e disse
tatua esta sensação na tua pele, meu amor.
mas sentei-me à beira de um rio
e vi passarem os barcos.
disse-me o barqueiro que estavam lotados
não havia espaço para o amor,
mas eu entrei na água escura
e nadei.
alcancei a barca, mais tarde.
o importante,
não foi o frio que demorou para nos encontrarmos
não foram... as ondas
não é o inverno
nem as vozes que te fazem chorar
sussurei ao barqueiro:
o preto assenta-te bem
e ele,
cantou para mim.
hei
estou a abraçar-te. cheiras bem
Tuesday, December 02, 2014
amanhã
na intimidade dos gestos
a nossa pele fala- promete
longamente
uma sede, que só os nossos
beijos cala.
e a temperatura eclode no limiar
dos nossos seres
quando nos confundimos
um no outro
e se misturam as sombras de ambos.
e és, sou, somos o ventre
de todas as possibilidades
que dançam nos nossos olhos
quando dizes- amo-te
e eu também.
a nossa pele fala- promete
longamente
uma sede, que só os nossos
beijos cala.
e a temperatura eclode no limiar
dos nossos seres
quando nos confundimos
um no outro
e se misturam as sombras de ambos.
e és, sou, somos o ventre
de todas as possibilidades
que dançam nos nossos olhos
quando dizes- amo-te
e eu também.
Friday, October 03, 2014
Tuesday, July 29, 2014
marulho
Habituei-me a escrever sob o marulho da costa, como se esse sussurrar fosse a minha própria agitação. No interior de mim, existe uma praia onde nos deixamos ficar, por vezes, em noites cheias de lua, e onde nos deixamos ficar sozinhos pois não há mais quem escute as ondas como nós.
Vou ao mar.
E tu vês-me entrar, vagarosa, com um sorriso pintado nos cantos nos lábios. Estendes a mão e nos teus olhos é como se me tocasses e fosse eu pequena e depois espuma. Há dias em que me sinto espuma a desfazer-se na areia molhada. Quando regresso, o cabelo gotejando sal, a minha pele arrepiada estende-se sobre a tua e é assim que nos confundimos com as dunas. Tu e eu, pequenos montes de areia apaixonados pelos ventos. A tua mão, percorre as minhas costas de uma ponta à outra e dizes-me ao ouvido que contarias cada grão de areia para saber dos infinitos onde se perdem os meus olhos.
Que te amo.
Sinto no meu ombro que os teus lábios formaram um sorriso. Há um extenso areal onde caminhamos e quando olho para trás e nos vejo, somos uma imagem gravada num espelho. Em cada onda, uma lembrança, e vês cometas caídos e desejas segredos. Neste lugar, nunca amanhece, somente a lua comanda o denso azul escuro e as estrelas. Estendes a mão e nos teus olhos é como se lhe tocasses e fosse a lua do tamanho de um polegar. Avanço, digo
Vamos caminhar.
A areia molhada convida-nos para a [eterna] noite de amor.
i.o
Tuesday, April 15, 2014
num balanço do meu corpo sou tua,
é assim que me agarras e prendes
como se toda eu fosse uma pluma
pousando em ti e ordenas: diz!
ao que a minha voz sucumbe e cai
num pequeno som murmurado junto à pele:
quero-te...
perco-me em cortinas de seda nos teus braços
e encontro o meu reflexo
num espelho partido dos teus olhos.
para o teu peito, um areal,
sou um barco que deu à costa.
é assim que me agarras e prendes
como se toda eu fosse uma pluma
pousando em ti e ordenas: diz!
ao que a minha voz sucumbe e cai
num pequeno som murmurado junto à pele:
quero-te...
perco-me em cortinas de seda nos teus braços
e encontro o meu reflexo
num espelho partido dos teus olhos.
para o teu peito, um areal,
sou um barco que deu à costa.
Monday, April 14, 2014
o teu nome
-devia restabelecer as minhas prioridades.
e por dentro houve algo que trouxe o óbvio à tona: tu, antes de tudo.
às vezes escrevo para ti como se todas as palavras coubessem num nome,
mas não cabem.
havia algo de cristalino no verde do prado, algo tão sagrado e tão próximo como se estivesse ao alcance de uma pequena flor amarela. colhi-a, à pequena flor, e entreguei nas tuas mãos o calor delicado da ternura. havia algo de igualmente cristalino nas copas das àrvores quando olhei para o céu enquanto guiavas e a música nos teus lábios era o antídoto da minha sede.
surges-me, como um sonho inventado por mim,
como uma impossibilidade materializada,
como um barco flutuando num lago que seguro nas minhas mãos.
surges-me, como uma luz iridescente na noite mais negra
como uma ave magnânima conduzindo-me pela sonolência
surges-me belo e quente,
e também assim me surge
o teu nome.
deito-me,
as tuas mãos sempre amparam a minha queda. digo o teu nome em voz alta,
e a lua responde-me com a tua voz.
digo o teu nome em voz alta,
e as estrelas calam-se para te ouvir respirar.
e por dentro houve algo que trouxe o óbvio à tona: tu, antes de tudo.
às vezes escrevo para ti como se todas as palavras coubessem num nome,
mas não cabem.
havia algo de cristalino no verde do prado, algo tão sagrado e tão próximo como se estivesse ao alcance de uma pequena flor amarela. colhi-a, à pequena flor, e entreguei nas tuas mãos o calor delicado da ternura. havia algo de igualmente cristalino nas copas das àrvores quando olhei para o céu enquanto guiavas e a música nos teus lábios era o antídoto da minha sede.
surges-me, como um sonho inventado por mim,
como uma impossibilidade materializada,
como um barco flutuando num lago que seguro nas minhas mãos.
surges-me, como uma luz iridescente na noite mais negra
como uma ave magnânima conduzindo-me pela sonolência
surges-me belo e quente,
e também assim me surge
o teu nome.
deito-me,
as tuas mãos sempre amparam a minha queda. digo o teu nome em voz alta,
e a lua responde-me com a tua voz.
digo o teu nome em voz alta,
e as estrelas calam-se para te ouvir respirar.
Sunday, March 30, 2014
A reconciliação
O tempo
é um dardo atirado ao nada de tudo o que nos pertence.
Saber de cor os traços do teu rosto e saber-te um enigma:
essa é a manifestação da fome e da sede na garganta muda.
Muda de silêncio-
O imenso.
O terrível-
Silêncio.
Como um corpo morto boiando à tona no rio do esquecimento.
O frio cortante rasgando a pele, apertando os músculos, condensando o silêncio.
E tu estavas lá, ainda,
vivo.
Com o olhar perdido em ventos nórdicos e fitando o chão.
A distância intransponível era seguramente muito mais do que o passeio entre nós:
Era o silêncio-
O absurdo.
O doloroso-
Silêncio.
Saberás calcular a distância entre os trilhos dos nossos olhos?
O orgulho como uma âncora;
Nós um navio afundado.
Mas eu nadei.
Nadei e rompi-o quando transpus o intransponível passeio entre nós e me descobri mais forte do que mim própria.
Eu, como uma floresta densa e como um viajante perdido nela, simultaneamente.
Meu amor, o sol queimou-me o rosto quando encontrei a clareira do teu alcance.
A reconciliação gradual:
o movimento lento do meu rosto no teu ombro,
os corpos habituados ao toque oscilando em rotações elípticas;
Em órbita um do outro:
Um move-se, o outro ajusta-se e aproxima-se lenta e suavemente como uma pluma flutuando no peito.
E então o Som,
na respiração, no pulsar do coração,
no calor da planície da tua pele escura;
O Som no choro,
nas lágrimas rebolando pela face;
No olhar que se encontra com o meu em ventos que deixam de fazer sentido.
No abraço, no beijo e nas palavras sussurradas ao ouvido.
Por ser difusa nunca compreendi o que é amar bem,
mas amar-te erradamente foi a coisa mais certa que fiz.
Habita-me, como uma manhã eterna.
é um dardo atirado ao nada de tudo o que nos pertence.
Saber de cor os traços do teu rosto e saber-te um enigma:
essa é a manifestação da fome e da sede na garganta muda.
Muda de silêncio-
O imenso.
O terrível-
Silêncio.
Como um corpo morto boiando à tona no rio do esquecimento.
O frio cortante rasgando a pele, apertando os músculos, condensando o silêncio.
E tu estavas lá, ainda,
vivo.
Com o olhar perdido em ventos nórdicos e fitando o chão.
A distância intransponível era seguramente muito mais do que o passeio entre nós:
Era o silêncio-
O absurdo.
O doloroso-
Silêncio.
Saberás calcular a distância entre os trilhos dos nossos olhos?
O orgulho como uma âncora;
Nós um navio afundado.
Mas eu nadei.
Nadei e rompi-o quando transpus o intransponível passeio entre nós e me descobri mais forte do que mim própria.
Eu, como uma floresta densa e como um viajante perdido nela, simultaneamente.
Meu amor, o sol queimou-me o rosto quando encontrei a clareira do teu alcance.
A reconciliação gradual:
o movimento lento do meu rosto no teu ombro,
os corpos habituados ao toque oscilando em rotações elípticas;
Em órbita um do outro:
Um move-se, o outro ajusta-se e aproxima-se lenta e suavemente como uma pluma flutuando no peito.
E então o Som,
na respiração, no pulsar do coração,
no calor da planície da tua pele escura;
O Som no choro,
nas lágrimas rebolando pela face;
No olhar que se encontra com o meu em ventos que deixam de fazer sentido.
No abraço, no beijo e nas palavras sussurradas ao ouvido.
Por ser difusa nunca compreendi o que é amar bem,
mas amar-te erradamente foi a coisa mais certa que fiz.
Habita-me, como uma manhã eterna.
Friday, March 14, 2014
O medo
o medo de perder-te é já maior que tudo.
por dentro, alimento um silêncio absurdo;
um espelho onde vejo refratadas carnes nuas,
onde capturo os corvos do enigma e da volúpia.
o medo de perder-te,
mas não de um perder qualquer em que estás longe,
ou em que não estás.
é o medo de que acabes.
que dentro de mim se quebre
o espelho da lembrança.
que no carvão das minhas pálpebras
não alcance mais a tua luz.
que nenhum tom de saudade volte a ter a tua voz.
canta-me,
som,
sol,
dó.
claridade.
os nossos corações são lugares crepusculares
o nascer do sol, uma promessa
sei que sem ti,
não despertaria a nenhuma manhã.
i.o
Friday, January 03, 2014
desejar ser livre beija-flor de pólen em pólen e de sobrevoar pequenos jardins silvestres em busca de nada mais que uma outra flor, essa mesma que tu colherias; tão nua para ti como um rio que raspa as margem e as inunda da sua frescura harmoniosa e límpida; ser nectarina que assomas aos lábios e sugas, saboreando com prazer a sua textura carnuda e o seu perfume adocicado e triste; ou desejar ser menina de vestido branco rossando os prados- cabelos a balançar no vento, trazendo-te os bolsos cheios de amoras doces e os cantos da boca manchados a púrpura; sonhar que me abres a porta de madeira com um beijo no ombro e que me preparas uma chávena de leite quente como se toda a nossa pureza permitisse que me fosses simultaneamente amante e pai; querer ver as nossas filhas de flor no cabelo brincando com o gato malhado ensonado do sol e de tardes estivais de verão; almejar ser vento fresco e brando que avança através das cortinas claras para te guardar o sono e voltar a ser eu pela manhã para que te beije sempre os dias, amor, porque és tudo o que eu preciso; ser natureza eterna enquanto a paixão for jardins intermináveis em que perdemos os fôlegos de contentamento; ser o céu que olhas quando te deitas comigo sobre a relva tenra, as nuvens para que apontas, os sonhos que dançam aos teus olhos quando as tuas pálpebras descaem sossegadas, as folhas amareladas de outono que te lembram tempos remotos de criança, o mar que te viu e vê chorar a dor tão imensa quanto ele; ser incansável como os anjos em tomar-te no meu peito
e ser terra que abater-se-á sobre tua expressão delicada e teus olhos parados, quando o teu suspiro for o último e ecoe na minha mágoa, para que me funda à tua pele e preencha o lugar da tua carne e dos teus ossos- para que te continue e te transforme e te faça viver em mim, para sempre.
Friday, December 20, 2013
Exatamente como um sol, deixas um rasto caloroso sobre a pele quando afastas os caracóis do meu pescoço e entreabres os lábios- sopras. Acolhes os meus suspiros gélidos e os meus olhos fartos de tudo quando as tuas mãos encontram a temperatura das minhas ancas;
-"estás quente", sorris
Enquanto me vais queimando, eu penso em como pode caber um vazio (meu) tão denso numas mãos tão delicadas (tuas). Do fundo do poço negro que é o meu peito, alcanço às escuras uma escada de corda, mas é custosa e exaustiva a subida;
- "não consigo", choro.
Há dias em que desisto. Fico parada a meio do nada e do tudo, semicerrando os olhos ao teu brilho intenso.
Desisto da subida que me leva a ti e dói;
- "amo-te", prometemos
Dói ver-te descer ao abismo para te encontrares comigo.
-"estás quente", sorris
Enquanto me vais queimando, eu penso em como pode caber um vazio (meu) tão denso numas mãos tão delicadas (tuas). Do fundo do poço negro que é o meu peito, alcanço às escuras uma escada de corda, mas é custosa e exaustiva a subida;
- "não consigo", choro.
Há dias em que desisto. Fico parada a meio do nada e do tudo, semicerrando os olhos ao teu brilho intenso.
Desisto da subida que me leva a ti e dói;
- "amo-te", prometemos
Dói ver-te descer ao abismo para te encontrares comigo.
Tuesday, December 10, 2013
prata
ouve as vozes que afloram nos meus lábios
em tons húmidos e quentes de suspiros
e as danças que assomam nos meus cabelos
em piruetas de caracóis delicados,
beija-os- aos meus cabelos-
e deita-te sobre o veludo da minha pele.
segura as minhas ancas como se elas se
quebrassem
com o ímpeto sôfrego de nos querermos
quando o luar penetra o vidro embaciado
e nos unta de desejo.
sei que o meu corpo arrefece, que o toque
das minhas mãos é de um frio gélido
e te arrepia o tom moreno da parte de dentro
dos braços, das costas, do peito.
quero agarrar o teu cabelo como um punhado
de ervas tenras e segurar-me ao teu colo
para não me apagar e sentir calor.
é isso- querer-te sempre por dentro de mim,
a peça que encaixa comigo.
oh que me rasgues as pétalas! mas alivies os espinhos.
vem ter comigo nas noites de sempre e sê fugaz
para que te leve na memória em flashes demorados
de nos termos.
sabes que te amo?
sabes de cor.
i.o
em tons húmidos e quentes de suspiros
e as danças que assomam nos meus cabelos
em piruetas de caracóis delicados,
beija-os- aos meus cabelos-
e deita-te sobre o veludo da minha pele.
segura as minhas ancas como se elas se
quebrassem
com o ímpeto sôfrego de nos querermos
quando o luar penetra o vidro embaciado
e nos unta de desejo.
sei que o meu corpo arrefece, que o toque
das minhas mãos é de um frio gélido
e te arrepia o tom moreno da parte de dentro
dos braços, das costas, do peito.
quero agarrar o teu cabelo como um punhado
de ervas tenras e segurar-me ao teu colo
para não me apagar e sentir calor.
é isso- querer-te sempre por dentro de mim,
a peça que encaixa comigo.
oh que me rasgues as pétalas! mas alivies os espinhos.
vem ter comigo nas noites de sempre e sê fugaz
para que te leve na memória em flashes demorados
de nos termos.
sabes que te amo?
sabes de cor.
i.o
Wednesday, November 27, 2013
Porque me surges, amor? Nestes recortes de paixão a fogo, em flashes de nós e do que somos se o que é nosso ainda arde?
Dizem que ao nos acercarmos do fim temos morosas lembranças do começo...
Amanheço tarde e desfaleço, tu, de onde estás, não me alcanças e na queda lembro-me que nenhum osso quebrado seria mais doloroso do que não te ter. Dentro de mim caio muitas outras vezes, continuamente e sem final, jurando eternas vertigens a um poço sem fundo. Mas uma mão penetra na vastidão densa das minhas profundezas e agarra-me pelo pulso, a outra mão, entra mansa pelas minhas roupas arrepiando-me e queimando-me a pele. Eu espero-te aqui, dorida das minhas quedas, numa varanda do sol que não me queima tanto quanto os teus suspiros e sonho com noites em que me beijaste as feridas e os joelhos.
Os teus olhos possuem agora o deslize tenro de um futuro sem nós, em que pensas? Sei que o meu coração tem vidros afiados de reflexos partidos e que quanto mais de amo mais te corto. O meu amor dói.
E tu, feito de farrapos de prata quando, sob a lua, te deitas comigo, perdoas sempre cada mágoa com que friamente me envolvo, choro no teu ombro e a cada inspiração sinto as cinzas da minha fraqueza. Ambos trememos agora e há quanto tempo se tornou o nosso amor frio?
Uma varanda do sol que me cega o olhar. Um coração feito de espinhos. Asas e asas, de aves que amei.
As tuas asas, amo-te melhor.
Dizem que ao nos acercarmos do fim temos morosas lembranças do começo...
Amanheço tarde e desfaleço, tu, de onde estás, não me alcanças e na queda lembro-me que nenhum osso quebrado seria mais doloroso do que não te ter. Dentro de mim caio muitas outras vezes, continuamente e sem final, jurando eternas vertigens a um poço sem fundo. Mas uma mão penetra na vastidão densa das minhas profundezas e agarra-me pelo pulso, a outra mão, entra mansa pelas minhas roupas arrepiando-me e queimando-me a pele. Eu espero-te aqui, dorida das minhas quedas, numa varanda do sol que não me queima tanto quanto os teus suspiros e sonho com noites em que me beijaste as feridas e os joelhos.
Os teus olhos possuem agora o deslize tenro de um futuro sem nós, em que pensas? Sei que o meu coração tem vidros afiados de reflexos partidos e que quanto mais de amo mais te corto. O meu amor dói.
E tu, feito de farrapos de prata quando, sob a lua, te deitas comigo, perdoas sempre cada mágoa com que friamente me envolvo, choro no teu ombro e a cada inspiração sinto as cinzas da minha fraqueza. Ambos trememos agora e há quanto tempo se tornou o nosso amor frio?
Uma varanda do sol que me cega o olhar. Um coração feito de espinhos. Asas e asas, de aves que amei.
As tuas asas, amo-te melhor.
Wednesday, September 04, 2013
o dia entra, preguiçoso, por entre persianas meias abertas e cortinas, despertando paixões sonolentas
assemelham-se os lençóis a espuma de mar, na areia, e nossos corpos ondas semi-geladas
vagueiam os meus dedos pela cama- fossem todas as nossas distâncias como esta- encontro-te
lentamente os teus lábios rasgam-se- sorris- e o que vejo é um amanhecer, tudo é calmo na tua pele
alcanças-me e num suspiro vestes o meu corpo, toda eu um tecido suave, o meu sangue aquece
tocas-me e de mim crescem asas, borbulha agora o interior de mim, o teu amor queima
mas...
numa quebra de realidades, numa fracção do tempo, o sonho desfaz-se
afinal...
não estavas aqui.
Monday, August 19, 2013
É num sussuro que faço descer a alça,
- quero-te,
Para que me cubras o ombro nu
Com o atear de um fogo e com
O arrastar de um beijo...
E é num sussuro que cais para dentro
De mim, sorvendo-me o aroma
Como perfume da madrugada, olhando-me
Como se as luzes de Viana
Brilhassem em minha pele.
Brilhassem em minha pele.
Mas é num segundo que me vou,
Algures para onde não posso saber de mim.
- fala comigo, dizes.
Há quanto tempo teria o tempo parado?
- se conseguires sequer falar contigo...
E num suspiro, volto para ti-
Entre o brilho das estrelas e o hélio,
Senti o teu cheiro-
Libertando-nos de tecidos para que
Somente usemos amor.
i.o
Friday, August 09, 2013
Quis escrever escadarias de mármore que escalassem o céu e se dissolvessem em núvens e poeiras galáticas- porque era um tempo em que ascender era precioso para uns, mas voar era perigoso demais para mim. Vagueei pelas avenidas e ruas de muitos lugares procurando por palavras que me permitissem erguer esse caminho, não para mim- que nunca tive curiosidade em conhecer a eternidade perfeita- mas para uns cujos sonhos tocavam ao de leve as constelações.
Havia tanto para ser-se dito, infinitas imagens cuja simples contemplação era a mais bela forma de literatura, uma infinidade de detalhes que mereciam ser escritos, e eu, qual arma, de caneta em punho, olhava em redor e tudo me surgia assustadoramente grandioso- pequena, pequena eu- esmagando-me o espírito com toda a força do universo. Soltar folhas brancas ao rio e observar atentamente o voo dos pássaros, foi o que sempre acabei a fazer de melhor...
Das diferentes partes de um dia, ignorava as manhãs e era quando o entardecer avançava pela linha em que o céu e o mar se encontram, derretendo o sol pela água, que me sentia despertar, e nas noites, era onde eu preferiria viver para sempre. Por vezes havia luar e olhando a lua- aquela gota cristalina, absolutamente sozinha, que banha sonolência pelo mundo- os meus olhos enchiam-se-me de vazios. Tudo o que valia a pena contar parecia estar fora do meu alcançe. Por muito que sentisse as histórias vibrarem dentro de mim, algo na noite as fazia esfumarem-se por completo, deixando-me à deriva num mar de céu. À janela, acreditava que um barco surgiria no negrume, com uma pomposa vela branca, recortada de crateras, e que, uma vez a bordo, ele me conduziria ao não-sei-quê que faltava em mim. Nunca saberei escrever- escrevia eu, em alturas em que me cansava de esperar- mal eu sabia que existem coisas que não podiam ser planeadas.
Era nessas noites que me prolongava pela insónia, acabando por perder o rasto de mim, o que, na manhã seguinte, não constituía um problema- tudo em mim era caos e para me encontrar seguia as marcas de tais destroços. Se a poesia fosse aquele barco- aquele que tanto esperava- certamente que a vela seria o meu diário, que tantas das suas páginas acabaram rasgadas, qual entropia de ser eu. Quantas vezes não me rasguei a mim também, quase tão facilmente como ao papel, em locais que indelével tinta que não se vê, mas sente, havia deixado borrões funestos. Eram recordações de amor que deixaram permanente formigueiro em minha pele.
Mas é quando ele me surge- novamente uma ave pousa em meus jardins- tão negro como uma noite de dezembro, mas tão quente como uma tarde de agosto. Suas asas densas percorrem as minhas palavras e escuto no eco do seu silêncio a coragem que é preciso para contemplar o belo. Uma melodia remota que nunca havia experimentado antes,- da tua voz, um canto- como estender o braço e lançar a ave ao voo, vê-la planar, e no último instante, quando as notas anunciam um final e se recolhem delicadamente da canção, ela regressa e pousa dentro de nós. É aí que as suas penas se transformam em braços e me envolvem o espírito, sacudindo-o de qualquer solidão e guarnecendo-o de carinho e calor. Há algo de violentamente calmo na forma como diz que vai ficar, somente enquanto for presente, mas nunca se vai, talvez porque o futuro seja uma imagem distante que está sempre longe e nunca mais volta.
Estendo a sombra cuja forma a lua trancou na sua face oculta, o meu coração está longe e é-me impossível lê-lo, só esse cujos traços são farrapos de obscuro o pode reencontrar. À janela, escuto algo:
- um barco e um corvo.
Desta vez, eu escolhi voar.
Wednesday, May 29, 2013
Sunday, May 05, 2013
Avanças de negro,
As tuas vestes não são mais que sombras tristes
Mantos densos que te cobrem, mas te deixam frio
Oxalá fosse eu mais real-
Mais real ainda do que a essência destas palavras-
E de entre o negrume te descobrisse uma
Porção de pele, sorver-lhe o aroma,
Preenchê-la de algum efémero calor.
Olha que gosto de ti, seja tão platónico quanto isso
Que seja, não importa
Nem tudo o que é verdadeiro tem de ser real.
Mas eu peço ao tempo que me encha de formas
E que essas formas encham os teus olhos, um dia, para que
Quando me sinta perdida, me encontres tu
Na retina da memória.
Olha que gosto de ti, espectro, gota astral, fantasia, desejo
Olha que gosto de ti, sombra, lado oculto dos meus olhos.
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