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Sunday, June 08, 2014

the story

era tarde quando eu adormecia, naquelas noites em que me esgotava na procura do teu rasto. enquanto corria, bosque dentro, rasgavam-me as roupas e a pele galhos e ramos aguçados. ainda assim, nunca temi perder-me, se nunca me tinha encontrado eu. na bruma densa e pesada, contei inúmeras histórias e enviei cartas em garrafas numa praia de um país qualquer, esperando eu, loba solitária, que me ouvisses as palavras. torrencialmente, eu me embrenhei em tempestades, mas elas nunca me levaram ao meu destino. sei que, há muitos anos atrás, escrevemos numa pedra os nossos nomes, mas aquela.. lava ou sonho incandescente e feroz que nos desfez os peitos, a desfez também como se nunca tivesse existido.

nunca tenhas medo- disseras- o medo é um vórtice.

e era também já tarde quando eu acordava e me vestia, a cada dia um vestido diferente. e lavava as pétalas do meu rosto, imaginando por onde estarias tu e qual a razão de nunca te encontrar onde te procurava, contra todos os meus esforços. aquecia então uma chávena de chá e sentia as pontas dos dedos entorpecidas pelo calor. haviam passado já dois invernos, meu amor. escrevia para mim num diário, promessas de que haveria de te resgatar, de te fazer voltar para mim. e eu era tão sincera. 


mas o que eu não sabia: 
tu colecionavas todas as minhas cartas e lias todos os meus destroços. imagino-te agora escondido entre as rochas, vendo-me lançar todo aquele amor ao mar. e pergunto-me tantas e tantas vezes, como não foste capaz de gritar que parasse quando me vias ser lançada ao abismo pelas minhas variadas almas. como não gritaste que parasse de nos atormentar aos dois. aquele pássaro, parado no muro durante horas, era afinal um aliado teu. 
o que não gritaste, gritei-o eu, quando as paredes da casa se instalaram vazias e eu te pedi que voasses com o teu amor tóxico.

sei que um dia o inverno acabou, de alguma forma, sem eu estar à espera.

lembro-me vagamente de uma cortina do tempo, vaporosa e clara. macia. que me engoliu ternamente e me fez transcender o mar, o bosque, o jardim, as estrelas e a ti. 
quando te voltei a encontrar, já não era eu.

houve um dia em que me sentei à beira-rio e lembro-me de ter visto a doçura sorrir para mim, com olhos caramelizados e tons de canela. tu não estavas lá, nem dentro de mim, tampouco eu me apercebera da tua ausência. admirava um final de tarde de agosto.
não sei como, mas eu acordei para um sonho. e agarrei o sonho pela mão nesse final de tarde de agosto, aspirei-lhe o aroma e adormeci. foi o dia em que me apaixonei pelos corvos.

às vezes, pergunto-me o que é feito da minha outra vida. mas eu sei uma coisa, velho amigo,

nesta, eu nunca preciso de ter medo.



violeta d.c. junho 2014

Wednesday, November 27, 2013

Porque me surges, amor? Nestes recortes de paixão a fogo, em flashes de nós e do que somos se o que é nosso ainda arde? 
                        Dizem que ao nos acercarmos do fim temos morosas lembranças do começo...

Amanheço tarde e desfaleço, tu, de onde estás, não me alcanças e na queda lembro-me que nenhum osso quebrado seria mais doloroso do que não te ter. Dentro de mim caio muitas outras vezes, continuamente e sem final, jurando eternas vertigens a um poço sem fundo. Mas uma mão penetra na vastidão densa das minhas profundezas e agarra-me pelo pulso, a outra mão, entra mansa pelas minhas roupas arrepiando-me e queimando-me a pele. Eu espero-te aqui, dorida das minhas quedas, numa varanda do sol que não me queima tanto quanto os teus suspiros e sonho com noites em que me beijaste as feridas e os joelhos.

Os teus olhos possuem agora o deslize tenro de um futuro sem nós, em que pensas? Sei que o meu coração tem vidros afiados de reflexos partidos e que quanto mais de amo mais te corto. O meu amor dói. 
E tu, feito de farrapos de prata quando, sob a lua, te deitas comigo, perdoas sempre cada mágoa com que friamente me envolvo, choro no teu ombro e a cada inspiração sinto as cinzas da minha fraqueza. Ambos trememos agora e há quanto tempo se tornou o nosso amor frio?

Uma varanda do sol que me cega o olhar. Um coração feito de espinhos. Asas e asas, de aves que amei. 

As tuas asas, amo-te melhor.

Friday, August 09, 2013

      
       Quis escrever escadarias de mármore que escalassem o céu e se dissolvessem em núvens e poeiras galáticas- porque era um tempo em que ascender era precioso para uns, mas voar era perigoso demais para mim. Vagueei pelas avenidas e ruas de muitos lugares procurando por palavras que me permitissem erguer esse caminho, não para mim- que nunca tive curiosidade em conhecer a eternidade perfeita- mas para uns cujos sonhos tocavam ao de leve as constelações. 
       Havia tanto para ser-se dito, infinitas imagens cuja simples contemplação era a mais bela forma de literatura, uma infinidade de detalhes que mereciam ser escritos, e eu, qual arma, de caneta em punho, olhava em redor e tudo me surgia assustadoramente grandioso- pequena, pequena eu- esmagando-me o espírito com toda a força do universo. Soltar folhas brancas ao rio e observar atentamente o voo dos pássaros, foi o que sempre acabei a fazer de melhor...
       Das diferentes partes de um dia, ignorava as manhãs e era quando o entardecer avançava pela linha em que o céu e o mar se encontram, derretendo o sol pela água, que me sentia despertar, e nas noites, era onde eu preferiria viver para sempre. Por vezes havia luar e olhando a lua- aquela gota cristalina, absolutamente sozinha, que banha sonolência pelo mundo- os meus olhos enchiam-se-me de vazios. Tudo o que valia a pena contar parecia estar fora do meu alcançe. Por muito que sentisse as histórias vibrarem dentro de mim, algo na noite as fazia esfumarem-se por completo, deixando-me à deriva num mar de céu. À janela, acreditava que um barco surgiria no negrume, com uma pomposa vela branca, recortada de crateras, e que, uma vez a bordo, ele me conduziria ao não-sei-quê que faltava em mim. Nunca saberei escrever- escrevia eu, em alturas em que me cansava de esperar- mal eu sabia que existem coisas que não podiam ser planeadas.
        Era nessas noites que me prolongava pela insónia, acabando por perder o rasto de mim, o que, na manhã seguinte, não constituía um problema- tudo em mim era caos e para me encontrar seguia as marcas de tais destroços. Se a poesia fosse aquele barco- aquele que tanto esperava- certamente que a vela seria o meu diário, que tantas das suas páginas acabaram rasgadas, qual entropia de ser eu. Quantas vezes não me rasguei a mim também, quase tão facilmente como ao papel, em locais que indelével tinta que não se vê, mas sente, havia deixado borrões funestos. Eram recordações de amor que deixaram permanente formigueiro em minha pele.
       Mas é quando ele me surge- novamente uma ave pousa em meus jardins- tão negro como uma noite de dezembro, mas tão quente como uma tarde de agosto. Suas asas densas percorrem as minhas palavras e escuto no eco do seu silêncio a coragem que é preciso para contemplar o belo. Uma melodia remota que nunca havia experimentado antes,- da tua voz, um canto- como estender o braço e lançar a ave ao voo, vê-la planar, e no último instante, quando as notas anunciam um final e se recolhem delicadamente da canção, ela regressa e pousa dentro de nós. É aí que as suas penas se transformam em braços e me envolvem o espírito, sacudindo-o de qualquer solidão e guarnecendo-o de carinho e calor. Há algo de violentamente calmo na forma como diz que vai ficar, somente enquanto for presente, mas nunca se vai, talvez porque o futuro seja uma imagem distante que está sempre longe e nunca mais volta.
       Estendo a sombra cuja forma a lua trancou na sua face oculta, o meu coração está longe e é-me impossível lê-lo, só esse cujos traços são farrapos de obscuro o pode reencontrar. À janela, escuto algo:

       - um barco e um corvo. 
        
       Desta vez, eu escolhi voar.