O tempo
é um dardo atirado ao nada de tudo o que nos pertence.
Saber de cor os traços do teu rosto e saber-te um enigma:
essa é a manifestação da fome e da sede na garganta muda.
Muda de silêncio-
O imenso.
O terrível-
Silêncio.
Como um corpo morto boiando à tona no rio do esquecimento.
O frio cortante rasgando a pele, apertando os músculos, condensando o silêncio.
E tu estavas lá, ainda,
vivo.
Com o olhar perdido em ventos nórdicos e fitando o chão.
A distância intransponível era seguramente muito mais do que o passeio entre nós:
Era o silêncio-
O absurdo.
O doloroso-
Silêncio.
Saberás calcular a distância entre os trilhos dos nossos olhos?
O orgulho como uma âncora;
Nós um navio afundado.
Mas eu nadei.
Nadei e rompi-o quando transpus o intransponível passeio entre nós e me descobri mais forte do que mim própria.
Eu, como uma floresta densa e como um viajante perdido nela, simultaneamente.
Meu amor, o sol queimou-me o rosto quando encontrei a clareira do teu alcance.
A reconciliação gradual:
o movimento lento do meu rosto no teu ombro,
os corpos habituados ao toque oscilando em rotações elípticas;
Em órbita um do outro:
Um move-se, o outro ajusta-se e aproxima-se lenta e suavemente como uma pluma flutuando no peito.
E então o Som,
na respiração, no pulsar do coração,
no calor da planície da tua pele escura;
O Som no choro,
nas lágrimas rebolando pela face;
No olhar que se encontra com o meu em ventos que deixam de fazer sentido.
No abraço, no beijo e nas palavras sussurradas ao ouvido.
Por ser difusa nunca compreendi o que é amar bem,
mas amar-te erradamente foi a coisa mais certa que fiz.
Habita-me, como uma manhã eterna.

6 comments:
A imagem por trás do texto está fantástica. Mórbida. Mas fantástica...
palavras deliciosas, cheias de uma melodia que enche a alma!
Hesito se comunhas na incerteza ou na solidão.
"Por ser difusa nunca compreendi o que é amar bem,
mas amar-te erradamente foi a coisa mais certa que fiz.
Habita-me, como uma manhã eterna."
Minha pequena e doce Nana... como sinto a falta das tuas palavras. Entende que o silêncio, por vezes, é assustador porque o deixamos ser. Acolhe-o em ti, e transforma-o em som mudo.
de que são feitas as lágrimas de quem fita o amor, a que soa o silvo de um coração a bater.
as tuas palavras são um rio onde bebemos a forma de tudo o que achávamos não poder ser tocado.
nasceste para ser bailarina
de palavras.
que o som nunca te deixe.
Perlim pim pim
Post a Comment