Sunday, March 30, 2014

A reconciliação

O tempo
é um dardo atirado ao nada de tudo o que nos pertence.
Saber de cor os traços do teu rosto e saber-te um enigma:
essa é a manifestação da fome e da sede na garganta muda.

Muda de silêncio-

O imenso.
O terrível-
Silêncio.

Como um corpo morto boiando à tona no rio do esquecimento. 
O frio cortante rasgando a pele, apertando os músculos, condensando o silêncio.
E tu estavas lá, ainda,
vivo.
Com o olhar perdido em ventos nórdicos e fitando o chão.
A distância intransponível era seguramente muito mais do que o passeio entre nós:
Era o silêncio-
O absurdo.
O doloroso-
Silêncio.

Saberás calcular a distância entre os trilhos dos nossos olhos? 
O orgulho como uma âncora;
Nós um navio afundado.
Mas eu nadei.
Nadei e rompi-o quando transpus o intransponível passeio entre nós e me descobri mais forte do que mim própria. 
Eu, como uma floresta densa e como um viajante perdido nela, simultaneamente. 
Meu amor, o sol queimou-me o rosto quando encontrei a clareira do teu alcance.

A reconciliação gradual:
o movimento lento do meu rosto no teu ombro,
os corpos habituados ao toque oscilando em rotações elípticas;
Em órbita um do outro:
Um move-se, o outro ajusta-se e aproxima-se lenta e suavemente como uma pluma flutuando no peito.

E então o Som,
na respiração, no pulsar do coração,
no calor da planície da tua pele escura;
O Som no choro,
nas lágrimas rebolando pela face;
No olhar que se encontra com o meu em ventos que deixam de fazer sentido.
No abraço, no beijo e nas palavras sussurradas ao ouvido.

Por ser difusa nunca compreendi o que é amar bem, 
mas amar-te erradamente foi a coisa mais certa que fiz. 
Habita-me, como uma manhã eterna.

6 comments:

Alice said...

A imagem por trás do texto está fantástica. Mórbida. Mas fantástica...

Margarida Carvalho said...

palavras deliciosas, cheias de uma melodia que enche a alma!

flávia said...

Hesito se comunhas na incerteza ou na solidão.

Catarina Prata said...

"Por ser difusa nunca compreendi o que é amar bem,
mas amar-te erradamente foi a coisa mais certa que fiz.
Habita-me, como uma manhã eterna."

Minha pequena e doce Nana... como sinto a falta das tuas palavras. Entende que o silêncio, por vezes, é assustador porque o deixamos ser. Acolhe-o em ti, e transforma-o em som mudo.

han said...

de que são feitas as lágrimas de quem fita o amor, a que soa o silvo de um coração a bater.
as tuas palavras são um rio onde bebemos a forma de tudo o que achávamos não poder ser tocado.

nasceste para ser bailarina
de palavras.
que o som nunca te deixe.

Anonymous said...

Perlim pim pim