Ninguém bate à sua porta faz meses, também já ninguém telefona. Contudo, a caixa de correio está cheia de publicidade que ela não lê e às mensagens que foram passadas por debaixo da porta ela não responde. Uma camada de pó forma-se sobre as estantes dos livros mais que lidos, a única coisa que alguma vez lhe interessou, mas que não tem mais importância. A cama está feita e no sofá um emaranhado de cobertores ainda quentes, porque, no mundo, não havia buraco suficientemente confortável onde pudesse esconder-se, cobarde que era para sofrer. Na banca da cozinha cresce loiça suja que ela não se preocupou em lavar. Porém, no quarto, que agora é apenas seu, tão cruelmente seu, as gavetas da cómoda estão vazias e, intacta, está a porta do armário aberta tal como foi deixada faz meses. A cama gelou sobre as cinzas do que costumava ser fogo, mas ela prefere não se lembrar do calor, quem sabe, assim, não dê pela presença do frio. Estendida sobre a colcha está uma camisa branca que foi deixada para trás, assim como ela, faz meses e, assim como a ela, nunca ninguém voltou para a vir buscar. Sobre o pó da mesa de cabeceira, está uma moldura voltada para baixo, embora não faça tanta diferença assim, pois ela conhece aquela imagem de cor- dois sorrisos sinceros e de amor os contornos que definem os olhos, que a olham, mas que a não veem. Já ninguém a vê, aliás, faz meses, e aliás, faz meses que faz um ano. Faz um ano que se deu o primeiro abraço, tão abandonado como a memória que o guarda, tão triste como esta casa abandonada e tão esquecido como a alma que se foi embora deixando apenas uma camisa branca sobre a cama.

10 comments:
e o pior de tudo é quando nos perdemos de nós próprios. tão profundo, doce iolanda, tão doloroso.
chega o momento em que temos de deixar de viver no sítio das memórias. não digo para não as relembrarmos mais, apenas "para sair de casa" para que assim arranjemos espaço para novas lembranças. custa-nos demais deixar de amar o passado, sem sabermos o quanto condicionamos o amor do futuro. seguir em frente.
obrigado pelas palavras que deixas. sempre ternas e simpáticas. *
olha que não sou. a tua escrita merece ser elogiada. só voltei a comentar por um motivo. um pseudo-pássaro disse que hoje era um dia especial para ti, por isso os parabéns. com muitas felicidades. espero que alcances tudo o que desejas. e um beijo. aproveita o dia. :D
és tão bonita, qualquer que seja o vestido que vistas, qualquer que seja o penteado que carregues. da alma à pele e da pele às palavras, e que mil sorrisos te esperem a cada manhã. um beijinho, querida iolanda
r: muito obrigada. agradeço por me aqueceres o coração mesmo nos dias mais gelados.
assim não vale. nao me digas que é mesmo sério a questão das lágrimas. obrigado por tudo.
fico mais descansado assim. pelo menos as lágrimas são mais generalizadas em relação a tudo. agradeço sim...é de mim, não posso mudar isso. é um gesto que não deixa de ser bonito...
querida iolanda, o quanto me dói ler estas coisas tão belas e sofridas, a verdade é que quando alguém parte tudo em nós e para nós é cinzento, pesado e desinteressante, mas certamente algum dia alguém virá buscar, não a camisa branca, mas a ti.
mil beijos
e quem falou que eu era o rapaz do texto? não desenhavas nada para sempre, ias fartar-te rapidamente. sou mais interessante por trás das palavras do meu blog.
como o título era "ele era diferente" e tu começaste dizendo que eu era diferente, pensei que estivesses a comentar o texto. continuo a achar que é tudo demasiado banal, mais um que por aí anda. levar-te a mal porquê? só levo a mal se me mentires outra vez xD (brincadeira)
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