Quis escrever escadarias de mármore que escalassem o céu e se dissolvessem em núvens e poeiras galáticas- porque era um tempo em que ascender era precioso para uns, mas voar era perigoso demais para mim. Vagueei pelas avenidas e ruas de muitos lugares procurando por palavras que me permitissem erguer esse caminho, não para mim- que nunca tive curiosidade em conhecer a eternidade perfeita- mas para uns cujos sonhos tocavam ao de leve as constelações.
Havia tanto para ser-se dito, infinitas imagens cuja simples contemplação era a mais bela forma de literatura, uma infinidade de detalhes que mereciam ser escritos, e eu, qual arma, de caneta em punho, olhava em redor e tudo me surgia assustadoramente grandioso- pequena, pequena eu- esmagando-me o espírito com toda a força do universo. Soltar folhas brancas ao rio e observar atentamente o voo dos pássaros, foi o que sempre acabei a fazer de melhor...
Das diferentes partes de um dia, ignorava as manhãs e era quando o entardecer avançava pela linha em que o céu e o mar se encontram, derretendo o sol pela água, que me sentia despertar, e nas noites, era onde eu preferiria viver para sempre. Por vezes havia luar e olhando a lua- aquela gota cristalina, absolutamente sozinha, que banha sonolência pelo mundo- os meus olhos enchiam-se-me de vazios. Tudo o que valia a pena contar parecia estar fora do meu alcançe. Por muito que sentisse as histórias vibrarem dentro de mim, algo na noite as fazia esfumarem-se por completo, deixando-me à deriva num mar de céu. À janela, acreditava que um barco surgiria no negrume, com uma pomposa vela branca, recortada de crateras, e que, uma vez a bordo, ele me conduziria ao não-sei-quê que faltava em mim. Nunca saberei escrever- escrevia eu, em alturas em que me cansava de esperar- mal eu sabia que existem coisas que não podiam ser planeadas.
Era nessas noites que me prolongava pela insónia, acabando por perder o rasto de mim, o que, na manhã seguinte, não constituía um problema- tudo em mim era caos e para me encontrar seguia as marcas de tais destroços. Se a poesia fosse aquele barco- aquele que tanto esperava- certamente que a vela seria o meu diário, que tantas das suas páginas acabaram rasgadas, qual entropia de ser eu. Quantas vezes não me rasguei a mim também, quase tão facilmente como ao papel, em locais que indelével tinta que não se vê, mas sente, havia deixado borrões funestos. Eram recordações de amor que deixaram permanente formigueiro em minha pele.
Mas é quando ele me surge- novamente uma ave pousa em meus jardins- tão negro como uma noite de dezembro, mas tão quente como uma tarde de agosto. Suas asas densas percorrem as minhas palavras e escuto no eco do seu silêncio a coragem que é preciso para contemplar o belo. Uma melodia remota que nunca havia experimentado antes,- da tua voz, um canto- como estender o braço e lançar a ave ao voo, vê-la planar, e no último instante, quando as notas anunciam um final e se recolhem delicadamente da canção, ela regressa e pousa dentro de nós. É aí que as suas penas se transformam em braços e me envolvem o espírito, sacudindo-o de qualquer solidão e guarnecendo-o de carinho e calor. Há algo de violentamente calmo na forma como diz que vai ficar, somente enquanto for presente, mas nunca se vai, talvez porque o futuro seja uma imagem distante que está sempre longe e nunca mais volta.
Estendo a sombra cuja forma a lua trancou na sua face oculta, o meu coração está longe e é-me impossível lê-lo, só esse cujos traços são farrapos de obscuro o pode reencontrar. À janela, escuto algo:
- um barco e um corvo.
Desta vez, eu escolhi voar.

3 comments:
tiraste-me as palavras por completo!
adorei! tens um escrita que delicia qualquer um, extremamente envolvente e realmente suberba.
os meus parabéns!
beijinho
és sempre tão fascinante nos teus textos . Derreto-me .
uma escrita mágica que nos arranca o coração para o olhar :)
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