Saturday, June 01, 2013

Caminhando por debaixo das luzes da cidade numa noite fresca anunciando verão, fugindo em passos adiantados para que mais ninguém a mim viesse de encontro e de encontro aos meus pensamentos. A passos tantos os meus pés calorosamente encontram a areia do rio, como amantes que emborcam álcool e de seguida amor, há muito apetecido. Deito-me, escutando as vozes de quem me segue o encalço e perdendo-me logo nas vozes de quem não o seguiu. Emborco memórias- não me lembrando, porém, de sequer chorar por ti, mas sei que morri e sei tão de cor a vida depois da morte que não precisaria de ler por entre linhas do corpo as vezes que de mim me perdi. Sei que passou um ano, mas há muito que o tempo deixou de ter medida, há muito que deixei de contar os dias. Os relógios são agora por estações- a que te conheci, a que te amei, a que te perdi, a que por ela me arrastei- com o peso dos dias e das rotinas de onde já não fazias parte. Sinto-te a falta tantas vezes quanto as que te detesto, querido, e soubesse eu roubar-te o brilho e devolvê-lo às estrelas ou não tivesse eu um coração de um só ritmo, o teu. Sob o lúgubre céu guarnecido de pérolas, contando eu as caídas, pois dizem que nos concedem desejos, e ainda antes de sequer pensar num pedido, já uma palavra se ergue em minha mente tão depressa quanto a estrela caiu- o teu nome. E um bater de asas se faz ouvir ao longe dentro do meu espírito e eu não sei o que faça- se me afogue no céu, se me afogue no rio. Mas pensando melhor, seja talvez no céu, porque cada estrela tem o teu nome, enquanto que o rio, apenas e só o meu reflexo.

                                                                                                     Violeta de Carvalho

8 comments:

Inês Santos said...

Bem, que texto fantástico! *.*

Inês Santos said...

Nada que agradecer :)

Inês said...

levas-me contigo em cada palavra tão forte que respiras. e este final, oh, que delícia. isto trata-se de amar mais o nome escrito na alma que temos do que o próprio corpo que a contém. está maravilhoso e não há palavras para ti.

filipa eça fonseca said...

está muito bom! gostei bastante. beijinho

han said...

és maravilhosa..

Sophie said...

Gostava de conseguir ter a doçura nas palavras como tu. Muito bem, a sério!

Filipa Magalhães said...

este texto está fantástico! adorei cada linha.

Catarina said...

está qualquer coisa ! qualquer coisa mesmo