Friday, April 12, 2013

Algo sobre o vento daquela manhã lhe escapara, o sussurro, o presságio, o código de acesso à sua alma. Estava lá escrito, no mais leve ar, que todos os seus sonhos estavam ao alcance de uma lua. Do outro lado do céu, dois olhos que a procuravam mas nunca a viram, sem saberem, porém, que já a tinham encontrado. Esperavam-se, rezando ao acaso, de esperanças no destino, escolhendo as ruas mais prováveis a encontros desencontrados, sabendo que, algures, o outro olhava o mesmo céu e escutava o mesmo vento que o seu. Deixavam, no entanto, que os seus corpos os conduzissem pelo peso da rotina, já mal levantavam os olhos do chão no desassossego das almas, na pérfida tristeza que os apunhalava nas horas vagas. O tempo descompassou no prolongar das horas. Começou a chover, pela noite. E eles nunca estiveram tão sozinhos, tão longe de si próprios, ainda que, apenas à distância de uma lua.  

3 comments:

said...

"Do outro lado do céu, dois olhos que a procuravam mas nunca a viram, sem saberem, porém, que já a tinham encontrado." que escrita doce e terna, adorei!

kowodzpin said...

vou começar com um pormenor em que reparei. este não está assinado pelo vestido que mais gosto, mas amei na mesma.

adorei esta brincadeira com a lua. pareceu-me um encontro e desencontro entre uns conhecidos desconhecidos, esperando que o tempo os (re)encontre. adoro o toque teu que dás em cada recanto. é um mistério com um toque de negro que me fascina. ah. e a chuva. as duas últimas frases foram especiais. levou-me para algo...

beijo :)

Inês said...

"Do outro lado do céu, dois olhos que a procuravam mas nunca a viram, sem saberem, porém, que já a tinham encontrado." - assombroso! deixas-me sem palavras e, oh, nunca deixes de escrever e de me guiar tão docemente a alma.