Tuesday, March 19, 2013

Tu guiavas de olhos fixos na estrada, mergulhando uns olhos de mel em sombras e deixando o coração pesado como uma pedra. O céu estava meio-morto-meio-vivo num final de tarde triste como as marcas de uma insónia. Limpara-te as lágrimas segundos antes como se fosse eu a mãe e tu a filha. E na noite passada, em pés de lã e de almofada debaixo do braço, deixei-me escorregar por debaixo dos teus cobertores. Posso dormir contigo hoje? E o som de soluço escondido dissipou-se numa vozinha trémula que quis dizer que sim. Também o meu braço escorregou sobre o teu corpo quente. Aquece-te, estás muito fria, disse a mesma voz doente, mal sabia ela que eu estou sempre fria e que nem a água que me escalda no chuveiro e deixa rios rosados sobre a pele me faz deixar de tremer. Mas, mesmo assim, apertei-te contra mim e segredei-te amor eterno ao ouvido. Mais tarde, enquanto rebolava em sono leve, adivinhei-te acordada e o mar de lençóis brancos era já um mar de sal húmido do lado esquerdo da cama.

4 comments:

Alice said...

nem desconfio, mas que é linda? ai isso é

Sophie said...

Os teus textos são algo de espetacular, tão bem escritos e tão sentidos que me faz gostar mesmo do teu blog! Fico feliz por tê-lo encontrado! :) Pois, a verdade é que não aguentei muito tempo sem facebook porque tudo me manda as coisas por lá, mesmo para trabalhos por ser mais fácil, e decidi criar um novo, mas o nome é o mesmo e se quiseres podes adicionar na mesma sem problema nenhum! :) E vá... eu até sentia alguma falta hahaha beijinho!

Patrícia Caneira said...

meu deus, que escolha de palavras tão certa, tão bonita!
adorei!!

Alice said...

obrigada! o teu texto está tão lindo