Tu guiavas de olhos fixos na estrada, mergulhando uns olhos de mel em sombras e deixando o coração pesado como uma pedra. O céu estava meio-morto-meio-vivo num final de tarde triste como as marcas de uma insónia. Limpara-te as lágrimas segundos antes como se fosse eu a mãe e tu a filha. E na noite passada, em pés de lã e de almofada debaixo do braço, deixei-me escorregar por debaixo dos teus cobertores. Posso dormir contigo hoje? E o som de soluço escondido dissipou-se numa vozinha trémula que quis dizer que sim. Também o meu braço escorregou sobre o teu corpo quente. Aquece-te, estás muito fria, disse a mesma voz doente, mal sabia ela que eu estou sempre fria e que nem a água que me escalda no chuveiro e deixa rios rosados sobre a pele me faz deixar de tremer. Mas, mesmo assim, apertei-te contra mim e segredei-te amor eterno ao ouvido. Mais tarde, enquanto rebolava em sono leve, adivinhei-te acordada e o mar de lençóis brancos era já um mar de sal húmido do lado esquerdo da cama.
