Eras um conhecedor de palavras, sabias como usar esse teu engenho e enchias-te de sons, desses fonemas de aroma a sonhos, a utopias. Eras como um poema gramaticalmente correto, digamos que, perfeito. Tão perfeito eras quanto mais vazios esses sons. Tão mais completo quanto mais oco o teu dom. Mas estavas um passo à frente, uma passo que significava um poço de conceitos, um abismo informe e abstrato entre mim e a tua retórica. Estavas, portanto, adiantado. Deixavas-me pedrinhas pelo caminho, um rasto de pão de contos de fadas, para que te seguisse. E agora que te vou alcançando em arte, percebo, desmistificando-te, que não eras tão perfeito como eu pensei que fosses e que, sim, tendo sido absolutamente narcisista por te amar, já não me vejo em ti. Já não te juro amor, apesar da saudade. E, apesar da pele clara que se renova sobre as feridas, apesar da incapacidade de sentir mais do que o nada, és o fundo do poço que não acaba. O meu caminho, porém, não são os teus passos, não é o teu encalço, não te sigo, apenas caminho lado a lado com a névoa invisível que carrego da tua presença.
Raquel Gonçalves

2 comments:
És sempre maravilhosa!<3
E perfeito é este teu texto. Gosto muito do conteúdo do teu blogue e, sobretudo, da qualidade. :) beijinho e continua!
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