Esta imagem leva-me de volta a um passado onde a infância se projetava em sombras geladas e onde as lágrimas de pequenas crianças haviam secado, por excesso de uso. Uma pequena bailarina de cabelos em tons de mel, cujas palavras eram de inverno e cujo coração falecia como folhas de outono e uma menina de papel onde a primavera fervilhava no espirito guarnecendo o sangue de aroma a rosas. Eu não sabia dançar, mas tocava violoncelo aos seus rodopios. Éramos duas crianças cuja infância se projetou em sombras. Demasiado tenras e delicadas para estarmos a sofrer. Ao mesmo ritmo que a minha alma se multiplicava em inúmeras facetas e estados de humor, a dela congelava lentamente e dividia-se sobre si, até sobrar coisa quase nenhuma. Mais tarde, os seus pequenos pés deixaram os rodopios e eu pousei o arco. No entanto, os seus dedos descobriram o amor nas teclas do piano enquanto eu a acompanhava a cantar. A doença escutava à porta, esperando o melhor momento. Um dia chegou, e já não éramos crianças delicadas e tenras. Haveriam de chegar lágrimas de sangue e suspiros gelados. Até que, certa vez, deixei de ouvir o amor do seu piano.
Raquel Gonçalves
Raquel Gonçalves

3 comments:
estou completamente rendida a isto, iolanda, está tão.. belo e poderoso e arrebatador e terno, tudo ao mesmo tempo. céus, como gosto!
"cujas palavras eram de inverno" sorri com isto porque acabei de escrever um texto e fiz uma comparação do género, oh querida iolanda :)
oh doce, não desejaria que ninguém se reveja naquilo que escrevo, porque vem de partes de mim que não são agradáveis, mas pelo menos fico feliz que tenhas gostado.
e fico maravilhada com os textos teus que leio, são tristes mas ternurentos.
oh, e como isso me parece um plano tão tentador, querida iolanda
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