Friday, February 22, 2013

Esta imagem leva-me de volta a um passado onde a infância se projetava em sombras geladas e onde as lágrimas de pequenas crianças haviam secado, por excesso de uso. Uma pequena bailarina de cabelos em tons de mel, cujas palavras eram de inverno e cujo coração falecia como folhas de outono e uma menina de papel onde a primavera fervilhava no espirito guarnecendo o sangue de aroma a rosas. Eu não sabia dançar, mas tocava violoncelo aos seus rodopios. Éramos duas crianças cuja infância se projetou em sombras. Demasiado tenras e delicadas para estarmos a sofrer. Ao mesmo ritmo que a minha alma se multiplicava em inúmeras facetas e estados de humor, a dela congelava lentamente e dividia-se sobre si, até sobrar coisa quase nenhuma. Mais tarde, os seus pequenos pés deixaram os rodopios e eu pousei o arco. No entanto, os seus dedos descobriram o amor nas teclas do piano enquanto eu a acompanhava a cantar. A doença escutava à porta, esperando o melhor momento. Um dia chegou, e já não éramos crianças delicadas e tenras. Haveriam de chegar lágrimas de sangue e suspiros gelados. Até que, certa vez, deixei de ouvir o amor do seu piano. 

                                                                                                                Raquel Gonçalves                                

3 comments:

han said...

estou completamente rendida a isto, iolanda, está tão.. belo e poderoso e arrebatador e terno, tudo ao mesmo tempo. céus, como gosto!
"cujas palavras eram de inverno" sorri com isto porque acabei de escrever um texto e fiz uma comparação do género, oh querida iolanda :)

Sofia Marques said...

oh doce, não desejaria que ninguém se reveja naquilo que escrevo, porque vem de partes de mim que não são agradáveis, mas pelo menos fico feliz que tenhas gostado.
e fico maravilhada com os textos teus que leio, são tristes mas ternurentos.

han said...

oh, e como isso me parece um plano tão tentador, querida iolanda