
"Começámos as falas nos bastidores, sem luzes voltadas para nós, sem aplausos, sem atenções. Estávamos numa peça de teatro e nós éramos a peça de teatro. Mas às tantas, um foco descobriu-nos numa cena de amor e da plateia surgiram críticas e reclamações. Quem é aquela? Não é a protagonista, pois não? Não, eu não era a protagonista, mas tu eras o actor principal e isto não estava certo, então mudaste de cena, porque a nossa não estava no guião. És um actor que não sabe improvisar e na última da hora tiveste medo do palco. Mandaste desviar o foco e pediste que se fechassem as cortinas para poderes começar de novo. E eu continuei nos bastidores, naquela disforme penumbra, um tanto assustadora, um pouco gelada. Deixei-me ficar, vendo-te na tua brilhante cena, na tua história pensada à letra, sem qualquer erro, perfeita. Se a partir daí chorei ou sorri, se desfaleci no chão ou se te aplaudi de pé, pouca ou nenhuma importância tinha. Afinal de contas, nenhum público se importa com o final de uma personagem secundária, com uma figurante. É isso que sou, uma figura de papel, uma personagem sem nome, cujo destino é insignificante e quase inexistente. Cujo rumo se perde, cuja existência se esquece... Aqui estou eu, aquela cujo nome nem sequer recordarás, escrevendo metáforas soltas que ninguém entenderá, pedindo uma vida, um papel principal, esquecendo que, na verdade, sou eu quem varre o palco no final."
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