
Há em mim um toque de insanidade misturada com o sonho, mas que não chega a ser pesadelo, porque desse podia sempre acordar e de mim não. O pássaro de corda, ou o rapaz de papel, tanto faz, tinha uma magia qualquer no olhar que desejei tê-lo só para mim, guardado num livro escrito por ambos, pousado na mesa de cabeceira, suspirado até adormecer. Era amor, era. Mas não era verdadeiro, nunca poderia ser. Nas histórias de amor, o protagonista nunca se apaixona por uma figurante. Então, disse-lhe que deixasse o guião, porque esse não o levaria a lado algum a não ser ao final da história. Mas ele não deixou e odiou-me, odiou-me tanto que me deixou sozinha, parada no meio da estrada e no tempo, com a alma em pedaços, porque era ele a ligação, com a palavra amo-te nos lábios que se perdeu sussurrada ao vento morto que não a quis levar. Os pássaros têm de ser livres, dissera. O que nele é irónico, uma vez que voou do céu para uma gaiola criada por ele mesmo. Como quiseres, amor, o que tem asas foi feito para voar, respondera. O que em mim é hipócrita, porque é o mesmo que libertar uma árvore tirando-lhe as raízes que ela precisa para se manter viva.
O nosso fim, seria a minha morte.
Mas ele queria ir e eu amava-o tanto que não tinha como dizer-lhe que não.
E por tanto querer que ele ficasse, mandei-o embora para que não voltasse.
3 comments:
está maravilhoso e profundo iolanda, realmente bonito.
Que simpática, obrigada!
eu sei que sim :)
escreves lindamente*
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