Tuesday, December 16, 2014

a barca das almas negras

o que faço primeiro?
há uma fome contorcionista 
que zumbe e arrefece,
mas sou incapaz de pensar 

ninguém fez chover lá fora
mas haviam nuvens algures
e estava frio na sala- o chão gelado.
ainda assim, agachaste-te

e era tão sólida a amargura
que as lágrimas se prendiam aos ossos.
doeu-te quando choraste?

nunca te ouvi sofrer,
mas sentei-me à beira de um rio
e vi passarem os barcos
e o entulho
a tempestade.

hei

lembraste de quando o verão durou uma semana?
quando te dei a mão e disse
tatua esta sensação na tua pele, meu amor.

mas sentei-me à beira de um rio
e vi passarem os barcos.
disse-me o barqueiro que estavam lotados
não havia espaço para o amor,
mas eu entrei na água escura
e nadei.

alcancei a barca, mais tarde.

o importante,
não foi o frio que demorou para nos encontrarmos
não foram... as ondas
não é o inverno
nem as vozes que te fazem chorar

sussurei ao barqueiro:
o preto assenta-te bem
e ele,
cantou para mim.


hei
estou a abraçar-te. cheiras bem