(...)
- Sabe, senhor Zimler, eu já não me lembrava há muito tempo do que era sentir, até àquele dia. Sei que sabe como é quando se olha para uma pessoa e nos apercebemos imediatamente que a amamos. Foi exatamente assim comigo, aliás, foi sempre ao longo da minha vida, sou um coração de tudo ou nada. "Num instante não me és nada, no outro morreria por ti". Isto é coisa que por vezes se complica, porque é como vermo-nos no centro de uma teia de aranha, finíssima como o ar e forte como aço. Não vemos que a teia está próxima, mas uma vez dentro dela não há volta a dar. Como eu ia a dizer, naquela tarde, o tempo tinha passado depressa demais. Rápido como o fluir de todo um passado condensado, como se em três horas tivesse vivido tudo o que tinha ficado estagnado em mim. Num impulso, dei por mim a apertá-lo nos braços, apesar de ele se queixar que o estava a sufocar. Mas na minha cabeça não estava, estava somente a sentir e a pesar a sua existência. "Céus, tu existes", disse-lhe, tão tonta quanto isso, porque é assim que eu sou quando me apaixono, falo como se a pessoa diante mim fosse a minha desde-sempre-companheira celestial. O que depois disto me desarmou em surpresa, foi quando senti ele a apertar-me de volta. Ali, espremida entre aqueles braços e aroma, foi como se passasse a sentir que também eu existia. Já não me lembrava há muito do que era sentir, do que era sentir-me a mim ou sentir que me sentiam, está a ver? Ele fez-me ver que eu não era virtual mas um ser de carne e osso. Sentir surge-nos de muitas maneiras e é uma dádiva. Durante muito tempo tinha-me habituado a somente pressentir. Pressentir o calor, o frio e o vazio. Nem a dor causava qualquer inquietação em mim, porque não a sentia, pressentia-a. As sensações eram cápsulas vazias. Só que naquela tarde, sentir o peito dele não bastou, peguei-lhe também na mão. Porque na minha impulsividade eu esqueci-me que esse gesto o poderia assustar e, de facto, acabou por acontecer, pois ele soltou-se imediatamente. Mas, tão tonta quanto isso, eu implorei-lhe que me deixasse fazê-lo: "Oh, vá lá, eu tenho sonhado que te dou a mão". E, assim meio na dúvida, ele lá pegou na minha mão de novo e para meu espanto: ele não parava de a mexer. Tanto que deixei de saber se tremia de nervosismo ou se era assim mesmo o toque dele. Era pois: um toque tão ritmado como as canções que ele ia cantarolando, um toque que dançava. De repente, surge-me ali o conteúdo de uma cápsula e toda eu me vi mergulhada num profundo ambiente de sensações. Sabe quando há imenso tempo não se sente nada, como se dentro de nós houvesse um relógio com os ponteiros parados e, de súbito, o tempo retoma o seu ritmo e a vida abate-se sobre nós com todo o seu peso e brilho? Foi essa sensação, uma tontura, uma vibração do fundo do peito, vontade de soltar uma gargalhada, voltar a respirar fundo. Tudo por causa de alguém que num instante era apenas uma pessoa que eu não conhecia e, no instante a seguir, alguém por quem eu morreria. Por quem eu morreria uma e outra vez, por esta e todas as vidas a que tivesse direito. É estranho, como um mecanismo que recomeça a funcionar, trazendo sentido. Como o movimento lento do magma sob a pele, fazendo sentir. E, por último, como uma pluma branca a pousar no interior de mim como um descanso, fazendo sinal de que este é o meu aqui-e-agora. O meu coração era um terreno árido e ele um pequeno regato que penetrou por entre as minhas falhas e me inundou o peito. É bonito, não é? Como a vida nos quebra e depois nos traz a cura. E como quem não quer a coisa eu acabei a contar-lhe a minha vida toda e, oh, peço desculpa ocupar assim o seu tempo. As histórias são algo de quase tão incontrolável como o amor, não fazem sentido se não forem contadas, certo? É sempre bom quando o encontro por aqui, senhor Zimler, os sonhos são isso mesmo: o único lugar possível a todas as hipóteses e impossibilidades. Quem sabe não nos encontramos novamente e possamos, enfim, contar mais algumas histórias. Despeço-me agora de si e que saiba que é sempre um prazer e uma honra tê-lo por cá, até uma próxima vez.
1 comment:
Descrição maravilhosa do amor em toda a sua imensidão.
"Sentir tudo de todas as maneiras".
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