O pó no parapeito da janela amortecia o tom violáceo que escorria do sol desmaiado sobre a cidade. Púrpura era o tom com que se pintavam as paredes, mas não só. Na minha pele arrepiada plantou-se sementes de torbulência e como um amor-perfeito delicadamente brotando na neve, surgiam nódoas negras de amor pisado- coxas como um campo de guerra e os joelhos seus destroços. Ser frágil era confortável nos seus ossos vincados e não doía tanto quanto amar sofregamente-
querer no corpo um aconchego; um manto de veludo e secreções de tensão; desejo.
O vidro da janela embaciava-se ao ritmo da minha respiração prensada nele e o meu peito dormente ressacava de sensações violentas, como quando o havia avisado que o amor era um sismo e ele não acreditou que em nós se tornasse uma catástrofe. Fechando os olhos, imaginei o ranger da porta e contei os passos no chão da entrada; o som das chaves; a luz que se acendeu e o tempo que ele se demorou à porta do quarto observando a minha intimidade com a janela. Eu queria-o-
os dedos escorregando pela seiva do meu tronco e ramos e folhagem; o toque invernoso no calor do meu estio; choque térmico.
Os gritos nocturnos ressoavam nos lençóis e o veneno das palavras deitara-se neles, foi dessa forma que ele não voltou. Esperei, no entanto, nesse entardecer repleto de remorso. O amor esvai-se como aves escuras se confundem na escuridão. A noite traz amarguras que me encarrego de fazer a pele sentir. Ainda à janela, uma lua recortada iluminou as minhas pálpebras salgadas e húmidas e, por descuido, escutei no arrepiar dos móveis em sobressalto, o trinco da porta que ecoou no meu desamparo. A luz trémula do corredor; os passos no chão da entrada, o som das chaves; amor amor
saber que o medo amordaçava os fracos, os congelava, mas que nele se encontra sempre o lugar vago ao reencontro; o medo era a certeza de que todas as incertezas nos faziam querer mais e mais um do outro; regresso.

3 comments:
Afasta da tua pele branca as angústias da noite sem cor. Concentra-te nas gotas de orvalho que te caem dos olhos, e espero o retorno com afinco. Não vale a pena sofreres de todas as formas. Poupa um pouco o teu ser, que é tão bela, e que destróis sem parar através dessa tua dor e loucura de amar.
O medo é terrível, mas é também aquilo que une.
está tão terno , tão magoado ... tão absoluto . Obrigada por este texto sem palavras .
tão verdadeiro e profundo! adoro as tuas palavras! são repletas de sentido
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