Nunca fomos fogos indecisos, incendiando as veias, sangue em combustão. Nunca fomos nada disso de beijar nos lábios e de dar as mãos na rua. Tampouco éramos de palavras, apesar de ambos sermos feitos delas. Em contrapartida, eras o inverno, eu, primavera dos génios. De semelhanças tantas começamos a procurar pelas diferenças e tinhas realmente razão, em nada éramos iguais. Nunca fomos amor errante, apesar de todo o nosso amor ser um enorme erro, dirás. Já eu, calo o que te diria se estivesses aqui, calo-o no meu coração que nem as paredes do quarto ousam ouvir. Tenho-te um ódio tão grande quanto o meu amor por ti. Vejo-te em cada pássaro em cada fio, suspiro-te em cada pena de cada ave. Mas olhá-las, no mais alto dos voos e lembrar-me que nunca as poderei alcançar, como nunca te poderei alcançar de novo, pássaro. Nunca fomos promessas quebradas, porque nunca as proferimos antes. Mas fomos cartas rasgadas e correspondência que daria em livro. Fomos metáforas e alegorias e fomos inúmeros jogos, estilos e expressões. Fomos tanto, quase tudo, daquilo que já nada somos. Ainda bem que te conheci.
Raquel Gonçalves

4 comments:
Estremeci nestas palavras, como as cartas são leves... conteúdos mal assentes, risos suspiciosos, paixões falsas, congeladas na presença. Livros dão, e são a coisa mais bonita. Mas não tanto como o olhar.
fomos, fomos, fomos.. tanta história numa mera palavra, tanta vida ainda por viver nela esquecida. oh, nana.
Tão lindo que nem sei muito bem o que dizer para além de que surpreendes-me a cada texto com o sentimento depositado.
Beijinho!
gostei do ritmo, da harmonia, e do embalo leve de uma palavra grudando noutra.
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