Os seus dedos cheiravam a tangerina e migalhas laranja iam sendo deixadas sobre a relva acabada de cortar- cheira a erva a morrer- delicioso aroma. O sol encobria-lhe as dores que voltaram e quase desfaleceu sobre si mesma quando as sentiu chegar, mas algo a distraiu- um pássaro- negro como carvão, como os olhos que a fitavam- ao longe. Respirou fundo e abanou a cabeça às tonturas que não provinham da doença- mais ar, ela pensou- e as pernas tremiam-lhe sob o peso meio-morto. Ela estava tão doente e assustada, mas a mamã não estava em casa e não havia um abraço onde chorar. No muro de pedra, o pássaro ainda lá estava, os seus dedos ainda cheiravam a tangerina e a erva moribunda estava mais perto agora. Afagou-lhe a textura quando o sol não quis ver mais, estavam aranhas debaixo das folhas caídas, mas ela não se assustou, tão longe de si que se esquecera do medo. O vento primaveril beijou-lhe o pescoço, resfriando-lhe os suores frios, estava tão doente e tão assustada. Se alguma coisa correr mal, ninguém vai saber porquê. E tu que me olhas, porque não voas também? Odeio pássaros, odeio!- disseram os seus olhos, mas os pássaros não compreendem olhares. E quando as dores adormeceram e ela trouxe tangerinas nos bolsos, o pássaro ainda estava lá, por dentro de si, sem compreender porque é que tinha de voar.
Teresa.

7 comments:
Lindoo!!
Gostava que pudesses ir ver o meu blog, e se realmente gostares seguires pff. http://sozinhaentrepensamentos.blogspot.pt/
Beijinhos e obrigada*
obrigada princesinha. e este texto? absolutamente perfeito, a tua escrita encanta-me sempre
que maravilha, encantador, adorei adorei adorei!
Magnifico!
Simplesmente perfeito!!
Seguindo você, princesa.
Bj da filha do meio <3
r: a tua escrita é que é assombrosa. obrigada.
"... mas ela não se assustou, tão longe de si que se esquecera do medo." - maravilhoso. está lindo.
Uau! Fez-me lembrar tanto um livro da Joanne Harris "três quartos de laranja" e a tua escrita continua altamente soberba! *-*
Muito bom, escreves muito bem ;)
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