Saturday, April 20, 2013

da persiana semi-cerrada escorre uma nebulosa luz, parece gelada ao toque, quis tocar-lhe e deixá-la quebrar-me, oxalá me tornasse pó. vasculho no interior de um poço que há muito secou o que estará de errado em mim. ouvi a resposta algures no eco desse grito, mas não conseguia recordar-me das palavras exactas, porque nunca presto atenção à minha salvação. estava cansada demais para me importar, estava sozinha há demasiado tempo para querer que alguém viesse e ficasse. devia mandar-te embora, porque tudo o que eu faço é esmagar corações, pequenas nectarinas doces a escorrer amor das minhas mãos. sou terra molhada e aroma de chá, perfume de cereja e sabor a limão. não faço sentido, sei-o bem. tampouco me acho no direito de ser coerente quando tudo me parece fingido. não devia querer que ficasses, se o que respiro são caprichos e se tudo pelo que espero é em vão. a minha melhor memória não é a minha melhor recordação, porém, como um espinho envenenado, lateja no meu coração. há penas por todo o lado e até o céu é ébano por vezes. não tentes salvar-me, não vale a pena. e o que tinha para te dizer é que nunca poderia matar-te de vida se eu ainda vivo de morte.

6 comments:

Inês said...

a última frase deixou-me completamente sem palavras. oh, e que te encontres em jardins de rosas, por favor.

Anonymous said...

Escreves lindamente, tão profundo*

Inês said...

mereces os céus e os pássaros, oh, como adoro o doce chilrear dos pássaros.

han said...

"porque nunca presto atenção à minha salvação" que a ouvisses todos os dias, iolanda, e que o teu céu fosse sempre azul quente, bela escritora.

han said...

beijinhos de ternura, nana

kowodzpin said...

:)

a vantagem de não ler, é que tudo o que escrevo tenho certeza que não é tentação de me parecer propositadamente com algum autor. mas ainda bem, que pelo menos é fruto de um grande escritor. obrigado.