Tuesday, March 12, 2013

O que tu não sabes Daniel, porque estavas já longe demais para poderes escutar, é que sob aqueles farrapos de sol entre nuvens, cerrei os punhos e enterrei-os no musgo húmido de um muro, porque me sentia enfraquecer a cada passo, e de olhos embebecidos de sal, solucei, oh bolas, há anos que não soluçava a chorar. Como uma criança, sabes? Como uma criança Daniel. Estava tão vazia por me teres deixado cedo demais, porque não ficaste tempo suficiente para me preencheres o coração, porém, estava simultaneamente tão cheia de ti! Cheia do teu cheiro a baunilha mesclado a tabaco na minha roupa, cheia do sabor à tua boca na minha pele, e, reparei, uma erva no cabelo, o último vestígio do nosso leito de amor roubado. Sabes o que lhe fiz? Deitei-o fora, assim, e recomeçei a andar, começei a tentar esquecer o tanto que me deste para recordar, quando a minha vontade era correr para trás e alcançar-te, mesmo sabendo que não me amavas e mesmo sabendo que eu própria não te amava, mas, oh bolas, era a ti que a minha pele sabia, era a ti que a minha roupa cheirava, era a ti que eu tinha na memória, era teu o eco da sensação de prazer, eras tu que, momentos antes, estavas em mim ou eu em ti, ou estavamos em nós, tanto faz... O que eu não sei Daniel, porque estava já longe demais para poder voltar-me, é se tu olhaste para trás no último adeus.

4 comments:

kowodzpin said...

"se tu olhaste para trás no último adeus."

oh meu Deus, este final rebentou comigo. tão simples, mas deixou-me sem palavras. saiu uma lágrima. :\ é triste :(

han said...

faço das palavras de cima as minhas, e talvez nem seja o suficiente. nunca há suficiente quando chega a hora de falar sobre as tuas palavras, roubas-mas por momentos.

Inês said...

está maravilhoso. encantador e fortíssimo. triste, mas tão doce. adorei.

Sophie said...

A última parte é simplesmente linda. Consegues ter uma escrita tão doce que me emociona! Gosto de blogues assim, onde a escrita cativa! *-* beijinho