Tuesday, March 26, 2013

As lágrimas que escorriam na janela foram sempre as suas preferidas, as nuvens que se agonizavam e se espremiam de si, mas ela não queria que as nuvens rebentassem, porque tornar-se-iam leves e deixariam de sofrer. A dor alheia era um perfume de maresia e o agasalho fresco das noites de verão, ela não suportaria viver sem isso. Abriu a janela e chorou sal quando as lágrimas das nuvens lhe beijaram as faces e estendeu-lhes a mão num simultâneo pedido de consolo e tentativa de confortar. A pureza húmida manchou-lhe a blusa primaveril de rosados tons quando a neve da sua pele derreteu carmim, também o seu corpo chorava. Algures entre as laranjeiras em tempestade, ela escutou o canto de um pássaro e o seu coração não se quebrou, mas aqueceu. Estás aqui? Ela perguntou, sorriso triste, de olhos fechados e réstia de amor aberto, porém, tudo o que lhe respondeu foram cânticos de inverno e correntes de morte. O corpo tremia ao frio e as pernas cediam como vidros finos que se partem. E os seus pés calcaram descalços todas essas pequenas lâminas em chamas. 

                                                                              Violeta de Carvalho

5 comments:

Patrícia Caneira said...

lindo!!

han said...

já não sei o que te dizer, mas quando eu penso que não me poderias surpreender mais.. oh, suspiros e mais ohs.

Innominate said...

adorei, vou seguir este teu mundinho :)

Sophie said...

Tu escreves tão bem! *-*

filipa eça fonseca said...

escreves tão bem, as tuas palavras têm tanto sabor!