Sou a superfície
sossegada de um lago e o meu coração é um pequeno barco de papel que flutua à
tona sem perigo de se afogar. Na verdade, este lago está deserto e há muito que
nada, nem ninguém, consegue mover estas águas. Talvez seja melhor para mim, e para
os outros, que me mantenha longe, embora eu esteja ainda tão perto. É difícil
compreender o que digo quando não se está por dentro, mas em tempos ouvi dizer
que é perigoso saber-se demais e eu prefiro não arriscar. Sim, vivo à margem e
não me misturo. Mantendo a minha água doce e minha, longe do sal e correntes de
outros rios e mares. Descanso a minha alma que, em jeito de paradoxo, nunca se
deu ao trabalho de cansar-se. Flutua apenas, seguindo o curso de uma brisa
leve, tão leve que mal a consegue mover. Prefiro que me detestem sem saberem o
que sou, por não me compreenderem, do que penetrem a minha mente de
compreensões e, acto contínuo, desilusões. Certa vez, li algures num livro do
Zimler que não devemos nunca contar segredos a alguém se não queremos vir a
sentir saudades dessa pessoa. Então, vivo os meus dias não vivendo muito,
flutuando apenas, na calma inquietante de um lago que nunca existiu.
Raquel
Raquel
21/12/2012

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