Wednesday, January 23, 2013

A noite está calma e gelada, periclitantemente quieta, como se nem o vento furioso e a chuva caótica quisessem estar aqui. Dentro do quando, Beethoven ao piano numa sonata em si bemol e o gato a dormir profundamente no colo. Está cheio, o quarto, de livros abertos na secretária, roupas espalhadas pelo chão, poemas aqui e ali, cartas que rasguei e lenços de papel ensanguentados. Não está ninguém aqui, só a solidão me acompanha. É inverno lá fora e cá dentro, em mim. No entanto, sobre a neve pálida com que me visto, brotam mais e mais papoilas de Abril. Sou um paradoxo e a natureza não tem espaço para mim. Escolho ser tudo, ser as árvores e os frutos, as papoilas e o prado, os pássaros e o verão. Mas não posso, estou acorrentada com teias de aço a este nada que é tudo o que sou. A condição efémera que a vida faz de mim. E eu pergunto-me, se tão mais eterna e simples, com gosto a alívio e transformação, como posso não preferir a morte? 

                                                                                                                                Violeta

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