Monday, December 10, 2012

 O cansaço de uma noite de insónias envolve-me todo o corpo, entorpecendo-o e dando livre acesso aos delírios. Doo-me e magoo-me sem dó. Estou fria e o gato está quente. O gato dorme e eu invejo-o. Sinto a alma mais fraca e gasta que as solas dos sapatos de um sem abrigo, mas dou gozo às más sensações e chamo-as. Venham, venham todas de uma vez só! Levem-me. Arrasto-me de um segundo para o outro e no entretanto já o tempo fugiu. Não era suposto custar tanto viver. Ao contrário de Campos, eu não tenho um lugar onde descansar, nem aqui nem em lado algum, nem em tempo algum, nem em infância alguma. Na lúgubre noite que passou, ouvi o ruído de uma caixa de fósforos no bolso do casaco e aí essa infância veio-me à memória: quem nos visse pela janela certamente pensaria que estaríamos simplesmente a brincar, a Helen e eu em corpos de crianças tenras e belas. Mas não! Eram dois rostos pálidos e olhos de quem estava a sofrer e não há nada mais doloroso que a dor de duas crianças. A Helen falava-me de um dos monstros da sua cabeça enquanto queimava fósforos, um atrás do outro, sorrindo ao ver que a chama se agonizava até desaparecer em fumo acinzentado. Não resisti, na escuridão do quarto e do espírito acendi um também. Aquela pequena luz iluminou a divisão, e aquela pequena chama aqueceu a ponta do meu dedo, mas a mim não... e a minha alma tem um gosto mais frio do que café esquecido no balcão da cozinha. E a minha alma está mais sozinha do que uma igreja, apesar da fila de gente à porta.

Violeta

5 comments:

han said...

um dia, escreve um livro, ou um conto, escreve.

han said...

oh, em alturas como esta, relê passagens de murakami, é sempre bom e de todas as vezes faz-nos perder nele.

han said...

isso entristece-me..

han said...

sempre que precisares, estarei aqui.

han said...

antes tivesse, iolanda, antes tivesse..