Estava desmaiada de angústia por entre um mar branco de lençóis frios, os braços ardiam como pequenas chamas de velas num cemitério onde jazem as velhas e esquecidas paixões. A realidade há muito que não era real e o desejo genuíno do coração metamorfoseava-se em imagens distorcidas que pareciam tão nítidas. Uma espécie de morfina mal doseada que consumia toda a lucidez. Cheirava a doença e a dor, como uma orquídea cheira a leve e a pó. Só não se tornou um pesadelo, porque tu estavas lá, e a tua beleza é graciosa e desequilibrada, e só não era um sonho porque eras tu, e tu és tão terrivelmente doloroso como um espinho de rosa. Mas abraçaste-me e pegaste-me a mão.
- Não podes estar aqui, tens de te ir embora já, estás a transformar-te num deles. Numa sombra como aquelas- chorei.
- Não posso, és a única por quem me vou apaixonar. E eu agora estou aqui- disseste enquanto me sufocavas.
- Mas isto não é real, não é verdade e tu não podes ficar- o amor começava a matar-me.
- Eu não vou a lado nenhum- prometeste, e tocaste-me. Tocaste desse jeito tão teu, que não ficava bem em ti.
As sombras abateram-se sobre nós. Eu sabia que não era real, mas aquilo era verdade. Uma verdade que não era real. Esse beijo rasgou o sonho. E desfez-se nos teus olhos de ébano, a última coisa que vi.
2 comments:
"Só não se tornou um pesadelo, porque tu estavas lá, e a tua beleza é graciosa e desequilibrada, e só não era um sonho porque eras tu, e tu és tão terrivelmente doloroso como um espinho de rosa.", chorei. está maravilhoso, e chorei porque encontrei dor no que é belo. ou beleza no que é dor.
Ora essa doce
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