Se naquela altura ela lhe dissesse que ao seu mundo faltava um pedaço, ele completava-o com parte do seu, no entanto, foi do tempo que nunca se falou. Talvez tenha sido essa a falha grave, a fenda que levaria a barragem a inundar todo o bosque verde que haviam criado para viver. Havia por lá uma pequena casa de papel e uma pequena cabana de madeira, que era rodeada por uma cerca branca, separadas por um riacho. Eles haviam construído uma ponte de madeira entre as duas casas...mas uma madeira demasiado luxuosa para ser permitida pela balança da vida. Demasiado boa para ser real: Ébano. Ela habitava a pequena cabana de madeira e acendia a sua lareira no inverno. O rapaz de papel, que tinha frio, entrou sem pedir licença. Colheu dos canteiros uma rosa aqui e outra além, mas pisou as doces violetas que cresciam todo o ano... Cresciam, pretérito imperfeito. Deixou pegadas no seu lugar e quando o fogo se tornou leves cinzas ele partiu e tornou-se leves saudades. Leves, porque a dormência entretanto tomara o lugar do pânico. Ela ainda o ama, mas ele já não existe. Deixou memórias de um beijo, de um amo-te noutra língua e de um desejo. Deixou uma pena porque voou. Sim, porque o rapaz de papel transformou-se num pássaro negro e a rapariga das rosas numa pequena borboleta ou quem sabe? Numa pisada violeta.
E não viveram felizes para sempre.
Fim.

1 comment:
se tu soubesses o quanto adoro a tua escrita...
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