A minha avó sentou-se comigo e começou a contar-me que há uns dias se encontrou por acaso com um senhor que tinha sido o seu maior amor antes de ela ter conhecido o meu avô. Contou-me que estiveram a conversar sobre o passado, a esclarecer todos os anos que não foram os suficientes para quebrar essa ligação magnética entre eles.
ela disse-lhe: passaram 40 anos...
e ele respondeu: não, foram 47...
Naquele tempo não puderam ficar juntos, pois os pais de ambos proibiram-nos de ficar juntos e os pais dele disseram-lhe que o levavam para um colégio interno se ele desobedecesse. A minha avó disse: "e ele era um pássaro livre, não podia ficar longe nem preso e por isso não houve força nem coragem para ficar comigo". A minha avó amou muito o meu avô, mas então ela pergunta-me "Isto dá para entender? Todo este tempo e ainda parece que estamos ligados.", ela também nunca esqueceu este senhor, embora ela diga "mas apesar de tudo isto, sei que também já não o amo."
É estranho como o amor parece tecer sempre os mesmos padrões, como ela não sabe o quanto eu a entendo, como existem coisas que são intemporais e inexplicáveis, independentemente de ainda existir amor ou não. Oh, pássaros livres... avó, não os podemos odiar por terem escolhido voar.
"(...) quando penso no teu avô, no que vivemos, na história que tivemos, sinto uma paz e uma felicidade intensa, apesar das saudades. E sempre que eu me lembrava dele, era diferente, era como um ruído a cansar-me a cabeça e tinha de fazer um esforço muito grande para o afastar da ideia. Mas é estranho como sempre que nos crusamos eu o reconheço de imediato, e vejo nele a expressão e o rapazinho que via há quarenta e tal anos. E ele também nunca deixou de gostar de mim como dantes, o que me entristece porque eu segui em frente no amor. Isto foi um sonho lindo que acabou cedo demais, um caso que não foi resolvido por nós, que foi resolvido por outros e talvez tenha sido isso que nos marcou mais. Até aos dias de hoje..."