Sunday, December 01, 2013

aproximei-me da porta, nela liam-se lirismos de outros tempos. tentei abri-la, mas ela rasgou-se nas minhas mãos. sobre os ombros trazia um manto de veludo que escorregou pela minha pele e se desfez em estilhaços no chão. ajoelhei-me e juntei cada pedaço dessa claridade partida, mas olhei as minhas mãos: ficaram sujas de carvão. apanhei então, cuidadosamente, os bocados escuros como quem apanha a alma de uma rocha e tomei-os aos lábios- sabiam a outrora. 
parti a claridade dos meus dias quando descobri a tua morada trancada. então, saí da floresta para o medo. nua.

[tempo]

aproximei-me da porta e entrei, no bar um clima quente e sossegado. ao fundo, no piano, tocavam algo que me lembrava the touch of your lips do chet baker e, numa mesa por entre as sombras, vi-te. desta vez vestias ainda mais preto, e seguravas um cigarro entre os dedos como se temesses que se quebrasse. caminhei até ti, havia voltado a vestir claridade e tu notaste-me. levantaste os olhos e sorriste-me timidamente, mas nem uma palavra saiu através dos teus lábios. esperei, olhando-te, a três passos da cadeira em frente a ti. não falaste. 
tirei do bolso uma fotografia e no teu rosto surgiu uma interrogação. mostrei-ta e a tua boca entreabriu-se de surpresa.
- uma casa de papel na floresta- disse- que coincidência ter encontrado isto agora, e a ti. 
- sim.. parece que há coincidências- ouvi-te murmurar.
pousei-a sobre a tolha encarnada, tão perto das tuas mãos que desejei tocar-lhes. em vez disso, sorri-te novamente como quem sacode perdão da roupa. 
havia algo triste na forma como quase nos despedimos e, de súbito, uma reação da tua parte:  
-já vais? bebe mais um copo...  
o teu convite caiu sobre nós num tom seco de incoerência, pois nenhum de nós havia pedido nada antes. parecias cansado e triste e desejei alcançar-te num abraço, mas hesitei. ainda de pé, pensava, porque não?- se era eu quem ainda trazia passado nos bolsos. puxei a cadeira em frente a ti, quase podia ver-te, quase podia olhar-te nos olhos, não fosse um véu de distância. 
-o que vais tomar? perguntei.  
-oh, eu não bebo...

2 comments:

said...

tens uma escrita deliciosa para escrever histórias. um dia gostava de ter um romance teu nas mãos:)

Catarina Prata said...

Vale a pena? Passado é melhor nos bolsos ou em frente a nós? Se responderes a isso, sabes o que pedir, sabes o que fazer com essa parede, esse muro.
Tem confiança em ti, porque só tu sabes o que fazer.