Sunday, November 17, 2013


Rita,
       Somos o oposto uma da outra. Não percebo, sinceramente, como é que uma bolinha cintilante de felicidade pode sentir qualquer espécie de adoração por uma amalgama de sentimentos decadentes e funestos como eu. No entanto, amo-te sem necessidade de retorno, na qualidade mais límpida e genuína de amor. Exatamente como se ama a um gatinho. 

Luís,
      Não quero falar contigo. Às vezes, sob a atmosfera mais tempestuosa, não há nada que deva ser-se dito. Às vezes, falar, é como querer agarrar à força um fio de fumo nos confins do horizonte- e é não saber qual das duas é a mais impossível: se agarrar o fumo, se alcançar o horizonte. 

Nuno
       A tua existência é uma lufada de ar fresco em cálidas tardes de Agosto. Há, no entanto, certos dias "de tempestade" em que o mais leve sopro pode gerar um tornado. Toda a gente fecha as janelas em noites de Dezembro. 

Manel,
       Recordo-me do quanto a minha dor te doía e beijar-te-ia as mãos finas de cada vez que um espinho meu se te crava no peito. Perdoa-me nunca as te ter beijado.

Helena,
       É dolorosa a forma como nunca me abandonas e sempre que sinto que quebro, dos fundos da minha consciência, surgem-me imagens nossas que ascendem aos meus olhos sob a forma de lágrimas. Em sonhos, vens quase todas as noites e é neles que secretamente ainda te amo.

Rui,
      Dei-te tudo. Se existe algum motivo de me ter tornado num ciclo vicioso de ardor, és tu. Quando te encontro todo o meu ser é preenchido de um longo e doloroso vazio. Mas ainda bem que não me olhas nos olhos, porque, acredita, irias sentir vertigens.
      Dou-te ainda um outro parágrafo para dizer que para mim o tarde demais não existe. O amor nunca acaba, por vezes, muda de forma, perde valor, cansa-se, mas nunca acaba.

Jéssica,
       Dói-me o coração de cada vez que sinto que não sabes de ti. És difícil de alcançar, um pouco como a linha dos confins do mar, um pouco como o vento que tudo toca e por nada é tocado. Mas eu sei que dentro de ti existe uma pérola perfumada que emana um brilho dos mais belos que pude sentir. Quando penso em ti, a ideia imediata que me surge é que funcionas exatamente como o processo de escrita. O lento vazar das palavras é extenuante e há momentos em que se desiste, porque, na verdade, o que falta é sentir o apoio de uma mão sobre o ombro e um sussurro que diga: vá, continua, estás a ir bem, tem coragem. Um dos meus mais íntimos desejos é que encontres esse murmúrio do universo. És delicada como pó de estrelas.

Catarina
       Engraçado que o primeiro pensamento que tive quando te vi foi de que os pássaros do acaso me haviam pousado nos ombros e me tinham levado até ti. Quando reparei, no teu ombro, existia realmente um pássaro tatuado. És maravilhosa como perder a conta nas estrelas e eu sempre me fascinei com o infinitamente grande. És grande, minha pequena. 

Joy,
       Deixei-te para último para que pudesse conter as lágrimas mais tempo. Sei que não percebes e sinto-me ridícula em tentar explicar-te, mas, oh, quem me dera saber dar-te mais que horrosos e enormes silêncios. Um deserto seria um oásis em comparação com o meu coração árido. Estou exausta e as minhas forças esvaem-se tão depressa deixando-me exangue. Tu reparas nos meus detalhes e a cada dia te amo mais, mas diz-me, amor, como páro esta enorme hemorragia de existir? Quando chegaste já mais não havia do que destroços e tu, minha bonança, estás sempre tão longe dos meus dias que quando te reencontro há um caminho tão longo antes de poder realmente tocar-te, tocar-te por dentro, que mais uma vez me perco das forças. Chegou a estação das insónias e torno-me um poço de agressividade, um misto entre o profundamente apática e o irremediavelmente destruída. Pela noite, senti que tudo o que me restava era o abandono e que a dor que mais temo- a de estar só, só, só- era a coisa mais viva que existia em mim e que se me agarrasse a ela, talvez, pudesse voltar a sentir algo de novo. 
       Mas pela manhã, voltei à certeza de que te amo mais do que tudo e que não te mereço. Escrevi,

Traz a minha noite, os meus sonhos, 
o meu descanso
Traz-te a ti corvo magnânimo 
que mais amo
Pelas tuas longas asas padeço...
Do tempo remoto, a longínqua promessa
-  de destruir-te ou amar-te para sempre.
Tu, minha tóxica combinação de forças. 

2 comments:

han said...

falar-te de lágrimas que não encontram contenção é insuficiente para descrever o efeito que tais palavras tiveram em mim, querida nana... nem sempre o universo fala, mas sei que, não muito longe, existes tu.

obrigada por apareceres, estrela que não dorme, que não me perde nos dias.

Catarina Prata said...

Não. Tu, tu é que és grande, e estás perdida na grandeza de ti.
Desejava estar aí, à tua cabeceira, como rouxinol que te traga a manhã, ou como arauto da noite para te adormecer suavemente, pois sinto-te frágil.
Não estás só. Quem enumeras, quem amas, não te deixam só. Apenas se o decidires, se for aquilo que entendes melhor.
Estou aqui. Dói-me saber que sangras por dentro.