Saturday, April 13, 2013

Nunca devias ter lá voltado, porque, tu sabes, outrora foi lá que foste feliz. Deixaste soltos os cabelos tom ferrugem escorregarem para a face, escondendo os olhos, escondendo as lágrimas. Seguiste pela calçada os passos que deram, quando ainda a primavera vos fazia chorar amor, quando ainda se ouviam cantos de pássaros no silêncio de um abraço. Mas para quê? De nada te serve, calcar o chão de antigamente, que não, não é o mesmo de agora, porque o calcas sozinha. Que saudade é essa que te desfaz em dor, se és tão delicada como um dente de leão ao vento. Continuas a encontrá-la pelos lugares onde as cinzas do passado pendem em nuvens de memórias, mas que não te trazem felicidade, só sal que molha lábios e só peito que treme não por frio. Nunca devias ter lá voltado- era inverno ainda, e lua cheia, quando o viste cruzar a rua que costumava ser vossa em esconderijos de amor- porque de costas voltadas ele se foi. O ébano, que não vês mas recordas, sempre, sempre, para sempre, é o veneno dos teus dias e o antidoto das tuas noites. Embarcas tu, e nós, pelas correntes que a nada te levam mas a lado nenhum. Pela noite, tremes de tempestade e abres-te em rios, pela manhã, beijo eu as feridas que são as tuas e as escondo- encontro perdão que rasgarás mais tarde, mas encontro. Canso-me do teu cansaço. E nunca mais devias lá voltar.
                                                                                                                
                                                                                                                        Raquel Gonçalves  

3 comments:

Inês said...

memórias que perduram de pessoas que vão voando para bem longe... memórias.

Inês said...

e que sejas forte hoje e sempre.

han said...

oh, raquel, tempestuosa e, ainda assim, tão secretamente delicada, raquel, a preocupação cansa. texto esmagador.