Vejo no espelho o meu reflexo rasgar-se em inúmeros farrapos à última luz do final de tarde. Vejo cristais perderem-se na sombra escura do chão de madeira, embebecendo de licor de sal, ao qual os meus joelhos cedem por vício e provam. O peito inclina-se sobre a cama onde o gato dorme sem pressentir a morte que nunca esteve tão perto. Algo quente jorra em fios pela neve com que me visto, cheira a mar. Os meus dedos avançam pela colcha desértica mas não encontram nada para além da dormência do teu fantasma, que me aguarda, cujos dedos alcançam os meus. Imagino a sensação de poder realmente tocá-los e sinto-a de facto no eco distante das recordações. Oh, que terno amor envenenado, que doce morte adormecida! Ele sorri-me, abrem-se os seus lábios numa expressão delicada, qual pétala de rosa! Olha-me, no mais frio ébano, como se pedisse perdão e é aí que, num pequeno e cansado choque, numa lágrima de velha desilusão, eu me lembro de que ele não é de todo real. Tu nunca me pedirias perdão.
Violeta
Violeta

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