As nuvens condensavam-se e distendiam-se como cromossomas em ciclos celulares e a minha alma metamorfoseava-se como um leucócito em fagocitose. Pousei o livro do Murakami no banco da sala de espera enquanto era assaltada por estes pensamentos e foquei-me na árvore de natal cujos enfeites destoavam uns dos outros, parecendo ter sido descobertos nalgum sótão abandonado de uma casa dos inícios dos anos oitenta. O pequeno irmão reparou na capa do livro «Como é que um elefante evapora?», perguntara ele em voz baixa e olhos arregalados ansiando resposta. Acordou-me do meu sono acordado e trouxe-me de volta com tamanha brusquidão que fui de encontrão com a realidade. Respondi-lhe que não sabia, mas garanti-lhe que mal acabasse o livro ele seria "o primeiro" a saber e ele encolheu os ombros de criança e concentrou-se na caneta de tinta azul que parecia mover-se sozinha sob a sua pequena mão de artista. Algures afundada de novo na realidade inexistente ouvi chamar o meu nome e levantei-me mecanicamente seguindo o médico. Tinha um rosto estranho preenchido de traços indefinidos e olhos castanho outono por detrás dos óculos. Não se pode dizer que fosse feio, mas não era nada compatível com o símbolo estereotipado de beleza comercial. Tratou-me por tu e levou-me a uma pequena sala onde me pediu que trocasse as minhas roupas por uma bata azulada. Grande foi o meu espanto ao descobrir-me confortável dentro daquele embrulho, aliás, sentira-me até familiarizada como se de um dejá vu se tratasse. Imaginei-me num hospício e os meus olhos cansados e perdidos em nada contrastavam com essa ideia. Mas foi precisamente enquanto encontrava os meus olhos no pequeno espelho que, no meu braço esquerdo, uma cor rosa vivo, quase morto, me arrancou a atenção do verde musgo morto, quase vivo, dos olhos. Apercebi-me que tinha mais papoilas murchas de Abril no jardim da minha pele. E congelei por segundos até o homem dos óculos bater à porta azul e perguntar se estava pronta. Tapei o braço com a bata ficando com o ombro esquerdo à mostra e gaguejei alguma coisa indefinida que soou a afirmação. Mas a disposição nitidamente inequívoca das minhas vestes não lhe ficou indiferente e ele puxou a bata para cima, cobrindo o ombro suave e tenro, salvando-o das vistas de um homem sério. E aí ele viu, viu a primavera encarnada no jardim proibido de inverno e não era a sua estação e não estava certo. E ele viu e eu quis chorar e quis pedir-lhe ajuda e tê-lo-ia beijado nos lábios se ele tivesse a cura, mas estava fraca e cansada e a primavera em mim morrera dando lugar ao inverno mais rigoroso. E ele viu-me, assim vestida, dessa forma tão nua.

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