A calma do dia estava inquietante, mas eu descobri algures na luz da manhã que a Susan deixara entrar pela janela que haverias de estar lá diante dos meus olhos. E eu fui, coberta pelo frio mais denso e emaranhando os meus caracóis de cobre com arrepios, eu fui, procurando-te pelas ruas da nossa cidade. Mas foi apenas quando o sol se derreteu para lá da grande igreja e a lua cheia ofuscou o céu, que eu te encontrei. Caminhava lado a lado com a Susan e dei por mim a guiar-nos até ao café onde costumávamos passar as nossas tardes de amor, onde, outrora, os nossos lábios se uniram numa promessa que pediu para ser quebrada. Vi sair do Freguez a silhueta de um homem alto e magro, casaco preto e calças de ganga, contrastando o estilo clássico com umas sapatilhas claras, vi um cabelo negro e um andar pesado. Reconheci-te precisamente pelo andar. Sim, porque eu tenho alucinações, e vejo-te nos rostos de outras pessoas, mas nenhuma delas, nenhuma, tem esse teu andar de quem arrasta toda a dor do mundo. No entanto, eu estava demasiado distante para que te tocasse o ébano, mas estava perto o suficiente para que te distinguisse entre os farrapos de lua que te fizeram brilhar de novo e que fizeram o meu coração parar, de novo. Mas tu não olhaste para mim e cruzaste a rua e o luar espelhado nos teus cabelos de pena cobriu-se de nuvens, então, avancei e quase corri, quase voei até ao fim da rua e estaquei na praça da erva. Aí pude ver-te percorreres sozinho a rua escura que daria à casa que seria a nossa, e vi-te olhares de esguelha para lá. Continuei parada, vendo-te deixares-me mais uma vez, mesmo sem saberes que me deixavas, até que senti a força carinhosa do braço da Susan. Vamos, sussurrou ela. Eu podia ter-te chamado e podia ter corrido para ti, mas não fui capaz. E quando me sentei no chafariz a única coisa que habitava o meu coração eras tu. Não gostas de sentir o frio no rosto? Perguntei à Susan. Não, nem por isso. Respondeu ela. Mas deve ser a coisa mais agradável do mundo. Pensei para mim, porque não conseguia sentir mais nada para além de ti.

2 comments:
gosto mesmo, mesmo de te ler.
É sempre uma experiência maravilhosa do que te ler, consegues emocionar-me a cada frase ;)
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