Nós podíamos ter tido tudo, podíamos, como uma casa a
abarrotar de livros e citações escritas nas paredes. Onde pudéssemos ler um
para o outro junto de uma lareira acesa até adormecermos em frente ao calor,
ou então, simplesmente "curtir o frio" à varanda, em pleno inverno. Eu cozinharia
estranhos pratos vegetarianos e depois serias tu a arrumar a cozinha como
combinado. Teríamos um cão, um beagle, chamado Dylan e um gato chamado Bob.
Podíamos ouvir Jazz durante toda a manhã e música clássica ao jantar e à tarde
podíamos dançar como doidos ao som de algum Rock pesado ou Punk. Haveria sempre chá para dois e dois para o chá. Íamos tomar
banho juntos, como se fôssemos duas crianças sem pudores, e íamos ler na
banheira poetas mortos que viveriam sempre nos nossos corações. Certamente que teríamos
discussões sobre qual que nós é o comunista e qual de nós é o anarquista, como
era costume nosso, noutros tempos de amor. Depois, tu escreverias à luz de uma
vela com uma pena e eu apenas ver-te-ia fazer isso, em silêncio. Podíamos
passear o cão pelo rio e partilhar um gelado. Podíamos beijar-nos à chuva e
fazer amor na alcatifa que estaríamos sempre a aspirar, encharcando-a de delitos apaixonados. Dar as mãos e mergulhar
ao mesmo tempo no mar seria o nosso cliché preferido. Os nossos filhos teriam nomes estranhos, e eu apresentar-lhes-ia o Principezinho e tu o grande Aslan antes de eles irem dormir. No nosso quarto, com
papel de parede cinzento, o teu baixo descansaria perto da janela acompanhado
da minha guitarra, simbolizando a música harmoniosa que poderíamos ser. Se
quisesses. Não entendo porque preferiste voar para longe e deixar-me aqui sozinha
sem um lugar para onde ir, sem um sentido, destruindo os sonhos que não eram só meus, mas também teus! Julgavas-me forte, mas na verdade
sou tão forte como uma árvore centenária, que cai, cai por não resistir à
tempestade, árvore essa que, uma vez tombada, não se volta a erguer. Tenho saudades tuas
meu pássaro mecânico, e tu esqueceste-te de me
dar corda.

2 comments:
És de letras, adoro imenso
Ora essa, querida
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