Eu estava tão cansada que tudo o que realmente me interessava fazer era
nadar. Mas mesmo com a praia estendida diante de mim como um tapete,
tudo o que me permiti fazer foi observar o voo das aves. As aves: senti
que nascera para somente admirar os seus voos e nunca para habitar no
coração de uma. Eu atirava uma pedra e elas esvoaçavam em todas as
direções. Sei que todas elas, de uma forma ou de outra, mesmo aquelas
que não possuem o sentido literal de ser-se ave, acabam, mais dia menos
dia, por escalar o céu em direção ao sonho. E é precisamente aí que
entra o meu papel, ficar a vê-las perderem-se no horizonte e deixarem
para trás um estranho rasto de eternidade. As aves: levam nas suas penas
todos os sonhos do mundo. Quando me decidi a entrar dentro da água,
também eu deixei para trás algo. Um acto contínuo: levanto-me, sacudo a
areia e avanço em direção ao mar. Atrás de mim fica a imagem de um tempo
em que amava as aves que se insinuavam inalcançavelmente perto. A água
gelada batia na minha pele marmórea. Algures num ciclo enevoado do
tempo, eu tornei-me leve como espuma. O sal infiltrava-se na minha pele e
afastava as minhas sombras para longe. Lá em cima, o sol descia
lentamente. Lembro-me de ter pensado que também ele estava cansado e que
tudo o que ele queria realmente fazer era nadar.
i.o
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