Friday, March 07, 2014

Pomar

foi o teu pé descalço que pisou a terra molhada, 
daquele terreno que se prolongava
nas alegrias das maçãs doces,
tu e eu,
sob a sombra delicada da macieira
marcando iniciais de amor,
mas quando acordo e te recordo,
há manchas nebulosas de claridade nos lençóis
e tu não estás lá-
a maçã da garganta arde
e a primavera arranha os pulmões
quando inspiro a frescura do norte.
o néctar das frases ainda ecoa
dos sonhos que marcaste como a navalha o tronco.
as tuas mãos, frias
no meu pescoço
quando te arrepiei a pele pálida
do interior do vestido de verão e provaste,
da árvore, a parte carnuda de um fruto proibido.
mas quando acordo e te recordo,
somente
a chuva bate na janela
e as macieiras ainda não deram fruto.

1 comment:

han said...

fico maravilhada, juro que fico maravilhada, de cada vez que te leio.
surpreendes-me - ainda que não seja surpresa que me vá surpreender. és magnifica, sei que és magnifica, mas sempre chego à tua ultima palavra vertida para nosso deleito e não evito dizer: caramba, ela é, de facto, magnifica.