não respiro fora de água- rio estranho que serpenteia num terreno árido, casa.
às costas trago memórias da cidade-sim e o caminho é longo. paro, numa ponte sobre a autoestrada- alcatrão que serpenteia num terreno urbano- e nas minhas guelras tento sorver aquele ar gasto, mas dói. inclino-me e olho em baixo, a maré de carros não é a minha casa, e no entanto, desejo ardentemente aquela corrente. um sol põe-se e manchas rosadas derretem num céu- este sol e este céu não são os meus, são apenas estupidamente parecidos.
a minha pele está seca e as guelras abrem-se desesperadamente ao ar, pedindo um alívio. não respiro fora de água. leio, ressequida, o nome da cidade-sim numa placa gigante.
e então a cidade-não, com o seu nome a arder onde não respiro, leva-me os passos como um tapete rolante. sigo a rotineira abstração do tempo, apático caminhar certeiro numa rua ruidosa.
mas eles não entendem porque não respiro... asfixio na incompreensão e na cidade-não.
- nunca estás contente.
os pulmões deixaram de existir e às minhas guelras peço perdão.
não respiro fora de água.
1 comment:
nunca, creio, te pude compreender tão bem quanto agora. talvez por isso doa tanto, porque sopras-me na pele e pudesse eu mostrar-te que sim, que estás a respirar, mas encontrar-te uma bolha de ar menos nocivo, uma bolha onde pudesses tecer os sonhos, sem que a realidade mais penosa tos pudesse distorcer. há um sonho de que me falaras, segue a sua rua. por vezes, há prédios de estranhos com batas sujas pelo caminho, árvores de fruto esquecidos da estação, mas no final, há o teu lugar. lembra-te. gosto muito de ti.
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