o amor
- vem do dorso frio, fundo, como um regato penetrando a terra rasgada e seca, abrindo caminho pelas fendas e fecundando a aridez do peito. ele abre-se do frio, fundo de nós como o tilintar de um risinho e suspirando flores nas margens húmidas da sua passagem. surge-nos assim primaveril como um renascer das cinzas e todas as estações se amolgam numa só quando ele nos agarra pela cintura e nos faz girar sobre os nossos olhares para que possamos contemplar a metafísica física da nossa natureza.
- é a natureza e a natureza é mãe. vemo-la parir seus frutos suculentos quando a nossa voz sucumbe e cala e provamos o perfume a maresia entranhado nas nossas lágrimas quando o chorar é rir e rir é nascer de novo. quando amamos de novo, rasgamos uma página de cem escritos e deixamos de saber escrever, pois o amor não se escreve, respira-se.
- qual ave de rapina descendo dos ares impetuosamente, é assim que embate no meu peito de porcelana e quebra as barreiras da minha mente, ele, majestoso e macio, abre caminho como uma rajada de vento e faz disparar estilhaços cortantes em todas as direções. a sua cura é um massacre e no sangramento da minha existência eu sinto a vida arder na minha pele e, enquanto recolhe os pedaços de sangue coagulado que a sujam, limpa-me de dentro para fora como um sal e um álcool esfregados na pele.
- quando os corpos se lançam para o cansaço, arfando, suando, em odores mornos, e se afastam quando por dentro nunca estiveram tão próximos. pego-lhe na mão para que nunca deixe de me resgatar, a sua respiração é irregular e a batida do seu coração um agasalho do meu.
1 comment:
O parágrafo da Ave rapinda me encantou!!! Muito lindo, parabéns.
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