Há uma incerteza almiscarada no ar de que o amor não se dilui no nosso sangue e nos quebra as vértebras. No entanto, reinventamos outras formas de quebrar, no escuro, quando os silêncios nos ardem na boca e no olhar um súbito grito de quem não quer estar aqui. Às vezes, nenhum de nós está. Pois um barco normalmente tem dois remos. Vibram estas palavras de encontro a uma janela, frias, lá fora a noite não aquece e o penetrar na mente é um medo que me agarra. Há um abismo por lá e por muito que eu traga asas elas desfazer-se-iam como corvos se confundem com a escuridão. Mas sinto um toque sossegado, na mão, como quem tacteia paixão- está bem no fundo dos nossos sistemas, abafada pela solidão, temo-nos perdido de nós um no outro. Mas porque não? Tenta.. E sinto que uma vértebra se rompe e o peito rasga, o meu ar esvai-se, como desfalecer- é assim que o amor vence. Num balanço, o meu corpo escala o seu, esfolo os joelhos enquanto tento agarrar-me ao seu espectro e quando o recupero, nesses suspiros de amor, há uma tristeza delicada que se emana e embacia os vidros. Nos nossos corpos, carvão, e ele nem notou os trilhos de agonia na minha pele.
4 comments:
as tuas palavras "vibram" na minha mente. texto delicioso!
:) um obrigado em silêncio. auch,que ler isto dói ainda mais que a ausência da alma no corpo.
Porque o desejo não desaparece, há sempre a necessidade de tentar alcançar aquilo que nos parece há muito perdido.
O que não quer dizer que o esteja, de facto. Por vezes, é só a nossa melancolia que nos cega para aquilo quer verdadeiramente vemos.
"palavras ferem mais que balas".. compreendo. um beijo de desculpas, não queria que fizesse doer. quis apenas vazar o que se prende cá dentro, não importa se por via de asas ou combóios. outro beijo.
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