Saturday, December 22, 2012

 O fim do mundo alastrava-se a cada passo que dávamos por aquela estrada e a brisa demasiado primaveril para o início do verão seria certamente um presságio se eu lhe tivesse dado ouvidos. Nessa tarde, caminhávamos depressa, e era ensurdecedor o barulho que o meu vestido de renda fazia por ser obrigado a encontrar-se com o meu casaco de ganga, esse barulho tão silencioso que abafava as palavras que nós não dizíamos. Estranhava os passos largos que davas, porque no passado caminhavas lentamente ao meu lado, saboreando cada segundo, e por vezes tocavas-me na mão, mas naquele dia não tinhas sequer tirado os óculos escuros para me olhares nos olhos e caminhavas de braços cruzados. Quando paramos ao fundo da rua, onde ninguém poderia ouvir-nos, tiras-te um cigarro e começaste a fumar e olhando o chão coberto de pedrinhas de alcatrão eu fiz de conta que não reconheci esse gesto, mas na minha cabeça lembrei as tuas palavras de outrora, nunca devemos fumar em frente a uma rapariga porque é sinal que não gostamos dela. Nunca entendi de onde foste buscar essa lógica, mas tu sempre tiveste o cuidado de não o fazer ao meu lado, mesmo quando te apetecia, que eu acabei por crer nela também. Uma nuvem eclipsou o sol e a sombra abateu-se fria sobre nós e o amor caiu-me aos pés. Gritei e tu gritaste, e eu agarrei-te e tu obrigaste-me a soltar-te, e disparámos uma série de insultos um contra o outro. Chega, pega nas tuas coisas, vamos embora. A beata do cigarro acabou esmagada no chão e os cantos dos teus lábios contorceram-se numa forma que eu nunca tinha descoberto em ti antes. Porquê eu? Rugiste, fazendo do nosso pequeno amor um enorme erro. Queres mesmo que te diga? Achei que soubesses a resposta tão bem como eu, mas enganara-me, enganara-me tanto... Anuíste. A minha voz morria de mágoa e tremia tanto que quase não se fez ouvir. Rui, eu amo-te. Os teus ombros tremeram, como se as palavras te tivessem atingido com especial força, como se não as reconhecesses, como se nunca lhes tivesses sentido o peso. Mas voltaste-me as costas e caminhaste sem olhar para trás. E deixaste-me com as palavras mais belas que alguma vez disse a alguém. Deixaste-me. E não há metáforas para isto, deixaste-me e pronto.

Violeta

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